Relato Refeno 2014 no Vento Real - parte um.



Preparação e largada

Graças ao meu amigo Alan Trimboli, dono do Meltemi, consegui participar esse ano da Refeno 2014. Ele e sua esposa Leila seriam tripulantes do Vento Real, um Multichine 31 construído ao longo de nove anos pelo Sergio. O Vento Real, o Meltemi e o Malagô já foram vizinhos na Boreal e eu sabia que em tese haveria mais uma vaga. Não sou muito de pedir nada aos outros, mas com a impossibilidade de o Caulimaran ir para a regata e diante do fato de eu estar com simplesmente tudo pronto, não me perdoaria se me conformasse com aquela situação: trabalhar ao invés de ir para Noronha! O "não" eu já tinha, então pior não poderia ficar. 

A resposta, porém, demorou e meu humor foi ficando cada vez mais azedo. É que o Sergio estava indo de Aracaju para Recife (sim, ele entrou sozinho e a noite naquela barra pavorosa) e naturalmente o Alan precisaria conversar com ele antes. Enquanto isso o telefone era apenas silêncio.  Passado o final de semana e a segunda-feira a resposta  veio apenas na terça, 23/09! "- Juquinha, você queria muito ir  para Noronha? Então... pode ir!!!". Sim, depois de tantas tentativas frustradas eu estava na Refeno!

Embarquei para Recife no dia 25/09 e às 10h30 já estava no Cabanga, a bordo do Vento Real.

O clima era quente e muito legal. Um clube com dezenas de barcos respirando vela. Gente de todo lugar. Amigos novos e velhos por todo o lado. O Alan e a Leila chegaram às 14h00 do mesmo dia.

Fizemos compras, abastecemos o barco de água e diesel e revisamos motor, velas e estaiamento. Passamos pelas etapas intermináveis de inspeção e liberação do barco pela Marinha. Na noite do dia 26/09 veio a primeira notícia complicada: por entender de regatas o mesmo que eu entendo de sânscrito arcaico, o Sergio nos inscreveu na categoria aberta. Ocorre que essa era a categoria que largaria por último, às 14h00 (a primeira largada seria 12h30, a segunda às 13h00, a terceira às 13h30 e finalmente a nossa) e isso não era sem motivo: ela trazia os veleiros mais rápidos: os trimarãs e monocascos acima de 50 pés (dentre eles o Caramiranga, nada menos do que o fita azul dessa edição). O Vento Real, por sua vez, era o menor da flotilha, com apenas 31 pés. 

A Refeno costuma ser uma regata onde os ventos de través ou orça folgada imperam. Isso quer dizer que quanto maior a linha d'água do barco, mas vantagem competitiva (velocidade) ele tem. Assim competir para valer com trimarãs ou com veleiros com o dobro da nossa linha d'água era virtualmente impossível, ainda mais sem um critério de correção de tempo, como a RGS!

Ficamos um pouco atordoados (ninguém quer ser o último sem ter chances de lutar, nem que sejam chances meramente psicológicas)  e tentamos mudar isso. O ideal teria sido nossa inscrição na categoria bico de proa, a primeira a largar. Mas a reunião de comandantes já havia acontecido e essa alteração não seria possível. Paciência. De qualquer forma eu estava cem por cento no lucro, pois não era nem para eu estar ali.

Por conta da maré saímos do clube às 09h00 do sábado, 27/09 e fomos para área de espera, onde fundeamos e... esperamos. Almoçamos às 11h30: bife com legumes, feito pela Leila. Uma novidade é que na hierarquia de bordo eu era o último, até por ser o recém chegado. Por conta disso, lavei a louça. E eu ia reclamar?

A largada era dividida em fases. Ao meio dia as classes bico de proa e aço (onde o maravilhoso Bepaluhê estava inscrito) pôde entrar na área de check. Todos os barcos, então, passavam por uma bóia, próximo à platéia e ao narrador, que apresentava os barcos e fazia comentários. Feito esse check os barcos recuavam e esperavam o sinal de cinco minutos para a largada (um pouco antes do Marco Zero do Recife), depois de quatro, um e, enfim, a partida. Esse último tiro era também o sinal para a próxima classe entrar na área de check

A área de espera foi esvaziando. Um veleiro desistiu ali mesmo, por problemas com o motor. Às 13h30 partimos para fazer nosso check. Quando o narrador apresentou nosso barco e a platéia aplaudiu nos sentimos um pouco pop stars da vela e menos a porcaria que de fato somos. Já participei de regatas antes, mas com narrador e platéia, essa foi a primeira vez e confesso que é bem legal.

No tiro de quatro minutos estávamos recuados da linha de largada, mas bem perto. O vento, porém, resolveu acabar e de vez! Isso porque minutos antes - e nas outras largadas - ele estava presente e acima de dez nós! A linha de chegada foi se aproximando, se aproximando, se aproximando... veio o tiro de um minuto e tanto nós quanto o veleiro Miss Carol estávamos escapados, ele um pouco mais a nossa ré. Mas não dava para fazer nada, pois já estávamos em regata e não poderíamos ligar o motor. 

O tiro de largada foi dado conosco escapados mais de trezentos metros. Por ironia o vento voltou fraquinho. O Camiranga veio lá do fundo, desfraldando uma code zero maravilhosa mostrando como é que se faz. Um tripulante do Miss Carol veio nos parabenizar pela "bela largada". Eu achei que ele estava sendo irônico e até fiquei meio bravo, mas depois descobri que ele simplesmente não sabia o que estava dizendo. A CR logo nos esclareceu, via rádio VHF:

"- Os veleiros Vento Real e Miss Carol largaram escapados e terão trinta minutos de acréscimo no tempo de regata. Podem continuar a regata".

Peguei o VHF e respondi: "- Vento Real ciente e de acordo". 

O que já estava difícil ficou ainda mais complicado...

(continua ...)

A mesa de navegação do Vento Real.

Salão do Vento Real: dois carrinhos de supermercado desapareceram nos armários e havia espaço para mais coisas. Barcos do Cabinho são únicos!

Cozinha...

... banheiro.

O Marco Zero.

O Capitão Sergio e o Alan discutindo os últimos detalhes da navegação.

Área de espera...

... Telémaco II, veleiro argentino.

A largada estava chegando.

O almoço também!


Pessoas assistindo a largada no centro do Recife.

O Marco Zero.

Tripulação pop star!

E o vento...

... se foi.

Largamos escapados...

... e ganhamos 30 minutos de penalização...

...assim como o Miss Carol.

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