domingo, 5 de outubro de 2014

Relato da Refeno 2014 no Vento Real - parte dois.


A bóia de Boa Viagem

Esse ano houve uma alteração no percurso da Refeno, o que segundo a organização a reaproxima de suas origens. Antes de seguir para Noronha os barcos tiveram que voltar algumas milhas indo até uma bóia que fica entre a praia de Boa Viagem e o bairro Brasília Teimosa. Duvido que alguém tenha realmente gostado disso, pois serviu apenas para atrasar todo mundo. Mas regras são regras.

Para nós chegar até essa bóia não foi fácil. Com pouco vento os veleiros mais rápidos logo nos deixaram para trás e ao chegamos no final do molhe do porto o duelo era apenas entre o Jamaica III e a gente. Aquele barco argentino era um bocadinho maior, mas andava muito parecido conosco. Lembrei que poderíamos brigar pelo Troféu Tartaruga, já que estávamos em penúltimo e bastava andar melhor do que o Jamaica, o que naquela altura não parecia tão complicado assim. O Capitão não gostou nada da ideia. Não queria ser uma tartaruga... 

A verdade é que nem o tartaruga seria fácil de ser conquistado. A medida que manobrávamos o barco apenas à vela, nossos problemas aumentaram. Descobrimos que o Vento Real não tem ainda uma ergonomia adequada. O barco é novo (fevereiro de 2014) e foi pouco testado. As catracas não aceitam um giro completo das manicacas  e a escota da genoa está instalada de forma incorreta e frágil. Dar um bordo era um parto - e um parto normal.

O vento na cara começou a aumentar. Então enfrentamos nosso primeiro pirajá - uma nuvem vinda do mar que trouxe ventos na casa dos 25 nós, fez crescer o mar e trouxe chuva bem forte. Bordo para cá, bordo para lá (uma luta para cá, outra para lá) e o Jamaica III nos passou e montou a bóia na nossa frente. Era o fim.

O moral baixou. O Capitão fez menção de desistir. Fingimos que não escutamos. Não era uma barla sota, mas uma regata de trezentas milhas. Muita coisa poderia acontecer, ainda que todas as chances estivessem contra nós.

Quando montamos a bóia, em último e com o Jamaica III lá na frente, a noite começou a cair. O vento uivava nos estais. O mar estava alto. Conversamos e decidimos que a melhor estratégia seria manter o barco inteiro e no melhor rumo direto para a Ponta da Sapata, nossa entrada em Noronha, com o máximo de regularidade na velocidade média, desde antes estimada em cinco nós. Era melhor andar com o VMG = Velocidade a cinco nós do que andar a sete nós e ter que fazer estripulias no rumo, percorrendo uma distância maior.  Foi o que fizemos: 60 graus na agulha o tempo todo e com a obsessão de manter a velocidade nos cinco nós.

Estava frio. A noite caiu de vez, mas antes colocamos a mestra no primeiro rizo. O barco ficou mais dócil, mas ainda atravessava. Demos o segundo rizo e o barco voltou a ficar "na mão". A flotilha estava lá na frente. Éramos apenas nós e o outro pirajá que nos encontrou no través da cidade de Paulista, ainda em Pernambuco.  Já estávamos bem rizados de mestra, de forma que apenas enrolar um pouco a genoa foi suficiente. Jantamos cachorros quentes, feitos pela Leila - um primor! 

Às 22h00 e o Alan e a Leila foram deitar. Eu e o Sergio ficamos no leme, ele levando e eu olhando para o horizonte. As ondas de través faziam o barco jogar de forma cadenciada: quatro "bundadinhas" fracas, depois uma bem forte e assim sucessivamente.

Enjoei. Mas não conseguia vomitar. Fiquei apenas com aquela sensação horrível. Não quis tomar nenhum remédio, pois fazer turno de leme com sono não era a coisa mais sábia a se fazer.

No rádio, então, começou um pandemônio. Éramos a essa altura acompanhados por um navio patrulha da Marinha, o Grajaú - P-40, que a toda hora pedia posições de barcos e informações sobre veleiros que não estavam ao seu alcance. Pelo que ouvíamos o mundo estava acabando para os trimarãs. Um sem mastro, outro sem leme, outro com problemas de "locomoção". Desistências em série, aos montes. Olhamos em volta e víamos apenas luzes de mastro ao longe. No radar os veleiros começavam a se distanciar. Aquele clima nos indicava que a coisa não estava fácil para ninguém. 

O Fandango chamava o Grajaú, mas apenas nós do Vento Real e o Bepaluhê conseguíamos ouvi-lo  e o contestávamos. Era bom ouvir a voz do Paulo, do Bepaluhê. Acabei fazendo uma ponte entre o Fandango e o Grajaú: um dos cascos fazia água. Eles controlaram mas desistiam da regata. Todos a bordo estavam bem. Glup! 

O enjoo me consumia. À meia noite chamei o Alan, que assumiu o leme. Antes ele me deu um plasil. Deitei um pouco mas não conseguia ficar dentro da cabine, que jogava muito. Sai e deitei lá fora. A costa ia ficando cada vez mais ao longe. Nosso Capitão, Sergio, deitou e dormiu.

Às 04h00 o  Sergio rendeu o Alan, acordado por um tombo do tipo matrix . Um pouco melhor do enjoo e muito cansado, fui dormir também. Estávamos no través de João Pessoa e dava para ver claramente que a partir dali o clarão da costa deixava de ser paralelo ao nosso rumo, fazendo a "curva" para dentro. O Capitão tocou o barco sozinho até o amanhecer.

P-40 - NPa Grajaú, um de nossos anjos da guarda.

(continua...)


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