quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Velejando no Nordeste...

Boas!

Por conta do lançamento do livro A Travessia Azul, fiz palestras em algumas cidades para contar para as pessoas mais sobre o que vivemos ao longo dos trinta e oito dias de travessia do atlântico sul, de Ubatuba até Cape Town. A primeira dessas palestras foi em Sorocaba, ainda em março. Depois veio Santos, Paraty, Ribeirão Pires, Ilhabela (como programa oficial da Semana de Vela), Joinville, Rio de Janeiro e Angra dos Reis. Em algumas o Alan esteve comigo, mas por questão de budget isso não foi possível em todas. Uma pena, pois cantar "Quanto rizo, óh/Quanta goteira, óh/Santos  a Cape Town não é brincadeira/Você orça, orça, orça/E vai caçando a vela à unha/E nem vê Tristão da Cunha!" com ele é sempre muito mais legal.

Palestra no Rio de Janeiro - Clube de Regatas Guanabara - 22/08/2018
Graças ao Hans e ao pessoal do grupo Velejar, capitaneado pelo Sergio Chagas, eu iria fazer uma apresentação na Refeno, dia 28/09/2018, em Recife e durante o almoço de confraternização do grupo. O modelo do encontro, porém, não favorecia e eu não podia ir antes. Por essa razão, acabou não acontecendo. De toda forma, eu e a Vivian já tínhamos passagens compradas para Recife para o dia 28/09. Então, aproveitamos e fizemos um tour pelo nordeste, indo (por terra) de Recife até a Praia do Gunga, já no estado de Alagoas.

Nossa travessia começou por Olinda (que há quatro anos eu tento ir e não consigo, mesmo estando no Recife em 2014 e 2016).

A última vez que estive em Olinda foi em 1984, com cinco anos de idade.
Em 2016, a bordo do veleiro Fratelli, naveguei por essa costa (travessia Salvador / Recife). Uma das coisas que disse durante aquela velejada foi que "No fim das contas, velejar pela costa do Brasil tem sempre a mesma paisagem: água". Esse "quase lamento" se justificava porque estávamos afastados mais de trinta milhas do litoral e, a essa distância, só se vê água mesmo. Outros velejadores já me disseram que fazem esse trecho mais próximos de terra, mesmo na ida até Recife e que a visão é espetacular (embora outros tantos digam que se colar em terra com vento nordeste soprando, a viagem vira um martírio). Eu acredito que mesmo havendo barcos de pesca no caminho, fazer essa rota vendo o litoral deve ser mesmo mais bonito (até porque a trinta quarenta milhas, não há barcos de pesca, mas há navios). Da próxima vez que fizer essa rota pretendo fazer justamente isso.

Em nossa travessia por terra pudemos conhecer, mais de perto, o litoral que navegamos. E como ele é lindo! De tudo o que vimos destaco, primeiro, a velejada que fizemos na praia de Serrambim (Ipojuca/PE). Alugamos um Dingue com o Leo, no Resort homônimo à praia (R$ 180,00 a hora... doeu!). De Dingue eu e a Vivian fomos até as cercanias da Ilha de Santo Aleixo. A Vivian (que veleja desde os cinco anos de idade) ficou no leme, mas sofreu de amnésia temporária ("- Bordo é para cá ou para lá?"). Foi hilário e eu, claro, não perdoei essa mancada a viagem inteira.

Ipojuca/PE
 Na praia dos Carneiros andamos de lancha... pois é. Minhas hemorroidas doem até agora. Mas a beleza do lugar, com seu jacaré gigante e a pequena igrejinha na beira do rio compensam esse pecado.

Praia dos Carneiros/PE e sua Igrejinha.

Praia dos Carneiros/PE
Outro ponto que merece registro é o prédio de apartamentos que fica na cidade de São José da Coroa Grande, divisa entre PE e AL. Ele é o único edifício da região e na aterragem para Recife, vindo de Salvador, ele pode ser visto muito facilmente do mar, servindo como uma espécie de farol ou balizamento: passou o prédio, já se está em PE. Foi legal estar em sua portaria, pois eu me lembro de tê-lo visto no mar em 2016.

O edifício "farol" em São José da Coroa Grande - PE.

O azul (cor da moda esse ano) da praia da Barra Grande de Maragogi é escandaloso.

O Caribe é aqui também.


Barra Grande de Maragogi/AL


Na praia do Patacho (Porto de Pedras/AL) há um belo farol. Esse, porém, eu nunca vi do mar. Ficamos um dia ali e esse foi o único dia em que choveu. Aproveitei para andar a cavalo na praia e provocar a Alice em tempo real.

Eu e o Asa Branca.

Na praia do Gunga andamos de quadriciclo. Eu piloto moto, então seria fácil. Mas a cada guinada com o corpo o "trem" não fazia curva alguma e por conta disso demos de cara nos coqueiros algumas vezes. Foi o payback do Dingue para a Vivi. Fica a dica: em quadriciclos o movimento do corpo não altera a direção. Use apenas o guidão!

Pajuçara - Maceió - AL
Na praia do Francês fomos à forra. Havia quatro Hobie Cats 16 e um Hobie Cat 14 para alugar. Apenas R$ 100,00 a hora. Mas com um detalhe... se ao invés da locação o dono fosse junto, o valor caia para maravilhosos R$ 10,00 por pessoa, em um passeio de meia hora (duas pessoas saia por R$ 40,00 a hora)! Como essa matemática, velejamos duas manhãs inteiras entre a praia e a barreira de recifes, ouvindo as histórias do Sr. João, pescador que veleja sabe-se lá como, e do Bernard, esse velejador experiente. Para mim, que comecei no Hobie Cat 14 e não velejava há muitos anos nesses barcos, foi legal não errar nenhum bordo! Quem veleja de Hobie sabe que dar bordo nesses barquinhos é uma arte. Interessante foi notar a quantidade de "recursos técnicos" utilizados para manter o barco em pé e funcionando. Se por aqui lojas náuticas são uma raridade, imagine-se por aquelas bandas... então via-se desde estaiamento de cabo sintético comum (ao invés de aço ou spectra) até ajustes  ainda menos ortodoxos. Foi muito, muito legal!

Velejando entre a praia e a barreira de recifes.

HC 16 com Juca no leme. Detalhe do estaiamento de cabo sintético.

Perna Longa, um Cusco Baldoso Velejador.

Praia do Francês - Marechal Deodoro - AL
Na programação da Cusco Baldoso está nossa participação na Adventure Sports Fair, nos próximos dias 19, 20 e 21/10/2018 no São Paulo Expo (Rodovias dos Imigrantes) e mais uma edição - a terceira, na verdade - do Match Race Cusco Baldoso Fast 230 no dia 27/10/2018. Falarei mais sobre isso semana que vem.

É bom estar de volta.

E vamos no pano mesmo!




quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Vamos no pano mesmo...

Boas!

Sei que estou há tempos sem escrever no blog. Penso sobre isso e não sei exatamente o que está (ou estava) acontecendo.  Em parte uma das coisas que talvez tenha me motivado é ter histórias  que ninguém sabe. Assim, quando eu estiver a bordo, posso contá-las sem que logo em digam: "Sim, eu li no blog". Isso me fazia sentir como um vovozinho que conta histórias repetitivas.

Estou "por aqui" desde 2009. E nesses quase dez anos de conversas, muita coisa mudou. Eu continuo indo só até ali, velejando. Mas a forma de se comunicar mudou. Grande parte das pessoas, atualmente, ao invés de escreverem blogs, criam vídeos.

Semana passada, em Floripa, eu conversei com a amiga Marina Bruschi sobre esses novos tempos. Quando eu aprendi a velejar, lá na baía de São Vicente, o processo ainda era natural: professor, gritos, o mar, o veleiro e eu. Não havia blog, não havia vídeos. Entre eu aprender a velejar e começar a escrever o blog, passaram-se oito anos; entre eu aprender a velejar e começar a dar aulas de vela oceânica, foram doze anos. Hoje tenho quase vinte anos de vela oceânica, diversas travessias na costa do Brasil e um oceano cruzado à vela. Ainda assim, velejar até o "pirulito" ainda é divertido, como na primeira vez.

De 2001, 2002 para cá a coisa mudou um pouco de figura. Antes aprendia-se, depois ensinava-se. Em 2018 às vezes eu tenho a sensação que, de repente, todo mundo ficou bom em tudo e saiu fazendo coisas mirabolantes, que eu levei anos para fazer, do nada. Eu me incomodei com isso, é verdade. Mas confesso que era um certo exagero.

Depois do celular com internet e câmera, todos nós geramos conteúdo. E vivenciar a experiência alheia é um dos fetiches de nossa sociedade contemporânea. E não é que todo mundo tenha ficado bom em tudo. Isso foi uma certa rabugice minha, faço o mea culpa. O que tem acontecido é que hoje nós acompanhamos a curva de aprendizado alheia em tempo real.  Não é que alguns autores de vídeos fossem velejadores ruins: era , apenas, que eles estavam aprendendo. Eu, quando comecei a velejar de HC14, era muito, muito ruim. A diferença é que não tinha uma câmera registrando minhas mancadas (uma pena, pois daríamos muitas risadas hoje).

Se lermos esse o novo mundo com a fonte correta, ou seja, cientes de que somos partícipes do aprendizado alheio, e tendo em mente que algumas coisas não devem ser lidas como regras absolutas (senso crítico), a coisa fica até divertida.

Essa mudança de plataforma me colocou, por algum tempo, numa encruzilhada: continuo com o blog ou viro youtuber também?

Esse dilema meu segundo livro, A Travessia Azul, ajudou a resolver. Assim como a TV não acabou com o radio, ou a internet não acabou com o livro impresso, o youtube não acabará com os blogs e com a palavra escrita. Eu não sei fazer vídeos, mas consigo escrever de forma razoavelmente clara (embora alguns digam que eu falo difícil).

Virar youtuber me soa caricato; já escrever, natural. A forma como eu me conecto com quem lê essas linhas ainda me parece mais adequada para minha personalidade. Fora que, escrevendo, eu fico mais bonito.

As estatísticas do blog confirmam que ele continua sendo muito lido (aliás, como nunca antes, mesmo com minha pausa de  meses). O número de exemplares de A Travessia Azul vendido (tanto na versão física, quanto na digital, via Amazon.com) confirma que sim, muita gente ainda lê - e olha que o livro nem fotos tem (propositalmente). 

Então, o blog continuará e eu voltarei a escrever frequentemente.

De um modo geral estou em um ano novo particular. Para a Cusco Baldoso isso significa reformulação de ideias. A poeira baixou, dei novo formato a antigas parcerias e me desfiz de outras que não agregavam. Quem precisa de âncoras são os barcos, não nossos sonhos. A Cusco continua ativa, firme e forte e a cada final de semana mais e mais gente descobre e redescobre o prazer que é velejar. 

Concentramos nossas atividades em Guarujá, estando assim próximos de São Paulo e de seus aeroportos.

Criamos um novo logotipo (na verdade, a Marina Bruschi criou) e entrará no ar um nove site, em breve. E até faremos alguns vídeos, por que não? Mas o principal meio de comunicação com a comunidade náutica e entusiastas da vela e do mar será, ainda, o bom e velho blog Vamos no Pano Mesmo, que trouxe tanta e tanta gente para o mar.

Nossa proposta não é mais de ser apenas uma escola de vela, mas um porto seguro para os novos navegadores. E para os antigos também. Nosso objetivo é permitir que o aluno não faça apenas o curso, mas que se mantenha velejando, a um preço justo, depois do curso. Criamos mecanismos para que o aluno não seja obrigado, logo após passar três dias a bordo de um barco, a comprar um veleiro ou fazer um novo curso para manter-se velejando.

A "estrela" da escola não deve ser o instrutor, ou seu barco, mas o aluno! A escola existe em função do aluno, e não o contrário. O aluno não deve servir para "financiar a velejada do instrutor", mas para aprender e ser o protagonista de sua própria vida, o capitão de seu próprio barco.

Temos, como escola, que criar diversas oportunidades de aprendizado, engajamento e experiências e permitir que o aluno possa, em um curto espaço de tempo, velejar sozinho, sem instrutor a bordo.

Velejar sempre em um mesmo barco torna o aluno bom naquele barco.

Não! O aluno tem que experimentar vários barcos durante seu processo de aprendizado: grandes, pequenos, espartanos, luxuosos, com roda de leme, cana de leme, em cruzeiro, em regata, em travessia ou indo só até ali.

É possível e nós já fazemos isso.

É nisso que acredito.

Esses são nossos valores.

Obrigado a todos que nos seguem. A história continua.

E vamos no pano mesmo!

Galeria - alguns momentos de nossos alunos no mar entre maio e setembro 2018:























terça-feira, 10 de julho de 2018

Deu merda...

Boas!

O acaso prega suas peças de formas bastante inusitadas. Essa história que contarei hoje, aqui no blog, mostra que a sorte pode estar escondida até mesmo em uma cagada...

Eu já contei aqui que em maio levamos o Malagô de Santos para Ubatuba, sem motor  e que na operação usamos o Manu, Velamar 31, do Mauro Pascotto. O que eu não contei foi a parte em que descobrimos um furo no casco do Manu nem como foi que descobrimos isso.

Ao chegar na Ilhabela, o neto, um dos tripulantes que nos ajudou na travessia (ex-aluno de nossa escola de vela, aliás), me contatou pelo VHF perguntando como fazia para o banheiro funcionar. Ele teve uma dor de barriga matinal e, após usar o vaso, houve certa dificuldade em "desembarcar" o material. Como não existe lá muito segredo em um vaso sanitário elétrico, minha resposta foi mais ou menos óbvia: "aperta o botão, uai".

O Neto, é claro, já havia tentado essa "manobra", sem resultado. Muito zeloso, ele tratou de tirar o que pôde com um balde e deixamos esse assunto para lá. O Neto e o Cainã desembarcaram na Ilha e, enquanto isso, eu e o Walter fomos no posto do Iate Clube abastecer o Manu de diesel.

Ao atracarmos percebi que a bomba d´água estava trabalhando de tempos em tempos, o que significava dizer que o barco estava fazendo água. Mas não foquei nisso. O importante era fazer o banheiro funcionar novamente, pois voltaríamos para Santos no Manu e aquele é um equipamento essencial (ainda mais porque teríamos a Vivian a bordo e mulher não faz pipi na borda).

O Walter esvaziou o paiol de popa procurando por algum registro ou algo que fizesse o banheiro voltar a funcionar. Nisso ele percebeu que havia um furo no casco. Não sabíamos que havia Tubolit Mep 301 a bordo (algo essencial em qualquer barco). Então, como era um furo, perguntei se um palito de dentes serviria para estancar. Era algo fácil de entrar no buraco e, molhado, expandiria, travando a inundação ao menos temporariamente. Para minha surpresa, o Walter me respondeu que um palito seria muito fino para o buraco, o que me fez ter um certo frio na espinha. Um parafuso, porém, serviria. Tratei de encontrar um parafuso e em dois minutos o problema foi resolvido. O do furo no casco, porque o banheiro não funcionou até o Guarujá. 

O problema do banheiro o Maurício Cassilhas, valente marinheiro, resolveu na marina: "excesso de material", que resumindo, entupiu o vaso e o colocou numa missão gloriosa, mas fétida. Já a origem do furo no casco era um pouco mais complexa.

Há alguns anos, um dos donos do Manu, que ainda se chamava Jazz 4, instalou um par de luzes subaquáticas - dessas que as lanchas adoram, às vezes com gosto duvidoso. O sistema não funcionou bem e elas foram retiradas. Porém, ao invés dos furos serem laminados com resina e fibra de vidro, passou-se uma massa e tinta por cima. Quando fomos para Ubatuba, eu contratei um mergulhador para limpar o fundo (o Roberto, no Pier 26). Ao tirar uma craca, esta provavelmente estava presa na massa que segurava o furo. Ao ser retirada, a massa veio junto e a água começou a inundar o barco.

Se o banheiro não tivesse entupido, provavelmente não perceberíamos o problema e o barco poderia ter sido inundado de forma irremediável. Subimos o barco no seco e tratamos de fazer o serviço como deveria ter sido feito antes:laminamos uma área bem maior do que a dos quatro furos e pintamos o casco.

E fica a lição: às vezes até as merdas que os outros fazem salvam nossas vidas - ou barcos.

E vamos no pano mesmo!



sexta-feira, 8 de junho de 2018

E começa mais uma travessia...

Boas!

Como programado, dia 06 de junho começou em Santos/SP mais uma travessia. No livro "A Travessia Azul: de Ubatuba à Cape Town a bordo de um pequeno veleiro", eu digo que a bordo do Samoa 33 foram feitas três travessias distintas. Começa, agora, a quarta: a que nós e quem nos ler e ir às nossas palestras iremos vivenciar.

O evento, que estava previsto para durar apenas uma hora, durou três. E ninguém queria ir embora! 

Foram feitas perguntas muito interessantes, que nos fizeram ver as coisas que vivenciamos por outros ângulos. Foi, de fato, uma experiência muito rica - e é apenas o começo! Até o final do ano, com o apoio da ABVC - Associação Brasileira dos Velejadores de Cruzeiro, eu e o Alan iremos percorrer todo o Brasil contando nossa história. Em breve divulgaremos a agenda completa.



Será muito bom, com certeza, fazer novos amigos e conhecer pessoalmente os leitores aqui do blog!

A versão digital do livro (para Kindle) está à venda, há uma semana, no site da Amazon - www.amazon.com.br. Desde o lançamento ele ocupa o primeiro lugar entre os e-books mais vendidos na categoria Turismo!



A versão impressa está em fase de pré-venda e os exemplares podem ser pré-reservados no site oficial do livro: www.atravessiaazul.com.br.







Obrigado a todos vc e vamos no pano mesmo!

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A Travessia Azul

Boas!


Depois de chegar em casa e reorganizar a vida, foi preciso um período de silêncio para que eu pudesse avaliar e valorar, com os pesos e medias corretos, tudo o que efetivamente aconteceu durante nossa travessia para a Africa do Sul.

Ao longo do mês de março eu me dediquei a escrever o livro: A Travessia Azul: de Ubatuba à Cape Town a bordo de um pequeno veleiro. O livro está finalmente pronto e será lançado em breve, em formato digital e impresso.



Nossa travessia foi uma viagem interior e escrever sobre ela me fez mergulhar uma vez mais em pensamentos. Como eu disse em uma passagem do livro, "Ninguém é o mesmo depois de fazer uma coisa dessas no Atlântico Sul". Acredito que o livro reflete bem essa realidade.

Agora está na hora de continuar nossa travessia, divulgando nossa história pelos quatro cantos do Brasil.

Assim, com o apoio da ABVC - Associação Brasileira dos Velejadores de Cruzeiro - ABVC, eu e o Alan Trimboli daremos início ao ciclo de palestras sobre a Travessia Azul.

A primeira será realizada em SANTOS/SP, no dia 06 de junho de 2018, às 19h45, no SMART CENTER. O endereço é Rua José Cabalero, n. 15, Gonzaga. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas através do e-mail: secretaria@abvc.com.br. Pedimos apenas a doação de um quilo de alimento não perecível.

Ao longo de 2018 percorreremos todas as regiões do Brasil. Acompanhe nossa agenda!

E vamos no pano mesmo!








segunda-feira, 7 de maio de 2018

Travessia Guarujá - Ubatuba

Boas!

Há uns dez anos, quando eu pensava em velejar de Santos até Ilhabela, me sentia como se fosse dar uma volta ao mundo (sem escalas). Era uma velejada longa e isso me causava muita preocupação. Redes de pesca no caminho, previsão do tempo, condições gerais do barco, o imponderável.

Hoje em dia ainda é assim. Apenas uma coisa posso dizer que mudou: minha relação com o tempo. Passar quinze horas ou vários dias a bordo navegando não me soa mais tão difícil quanto antes. É ir só até ali... nada demais. E isso aconteceu antes mesmo dos meus trinta e oito dias a bordo do Soneca, com vento contra, na travessia do Atlântico Sul.

Até quatro de maio  eu teria que levar o Malagô de volta para Ubatuba. Não havia opção. A maior dificuldade era que o Malagô está sem motor e não há perspectiva disso mudar no curto prazo. Foi então que em quinze dias planejamos como fazer para irmos apenas na vela até o Saco da Ribeira. Como consolo havia a certeza, absoluta, de que dessa vez o motor não quebraria em hipótese alguma...

O melhor dos mundos seria uma frente fria entrar. Com isso surfaríamos o mar com vento e ondas favoráveis de SW. Passaríamos por fora da Ilhabela e entraríamos com ventos folgados na Ribeira. A navegação levaria entre dezoito e vinte horas.

O plano B seria ir com ventos de E ou SE. Nesse caso, contra o vento. Nada impossível, embora desconfortável. Faríamos uma parada para dormir na praia de Guaecá (em São Sebastião) e sairíamos no dia seguinte, com destino ao Saco da Capela (em Ilhabela). Havendo condições, seguiríamos para Ubatuba no dia seguinte ou deixaríamos o barco por lá para terminar a viagem em duas etapas. Consegui apoio para atravessar o canal com o Hill (H2Orça) e com o Previdi (do Guina) - a quem desde já agradeço uma vez mais.

Se tem algo, porém, que eu aprendi na travessia de ida para a África do Sul, foi que aquele ditado judeu, "Faça planos e Deus ri", é bastante verdadeiro.

Esperei quinze dias por uma frente fria. Apenas uma passou, mas ao largo, no oceano, trazendo ventos de E. Depois, no último dia que poderia ficar aqui em Guarujá, veio uma tremenda calmaria. E não havia plano C. Era matar ou morrer, ir ou ir.

Partiríamos na sexta-feira, 04 de maio, do Pier 26. Eu, a Vivian e o Walter. Prontos para passar alguns dias boiando no mar. Pela previsão haveria vento apenas três horas por dia. Depois, calmaria. Seria uma semana longa até Ilhabela e a cada nova previsão, o Saco da Ribeira ficava mais longe.

Acordei na madrugada da sexta e olhei para o mar. Estava um azeite. Nada de vento. A lua cheia ria de mim. Então, deixei de ser orgulhoso e tracei um novo plano, mais realista. Iríamos em dois barcos. Na calmaria, esse segundo barco rebocaria o Malagô e quando houvesse vento, velejaríamos. Além disso, a operação seria mais segura. Nossa rota é o caminho de vários navios e pesqueiros, com mobilidade restrita. Sair apenas no pano, com previsão de calmaria (e, depois, de nevoeiros), seria se não irresponsável, no mínimo perigoso. 

Logo pela manhã liguei para o Mauro Pascotto. Ele, infelizmente, não pôde ir conosco (o que foi uma pena, pois teríamos dado muitas risadas). Mas me emprestou o Manu (Velamar 31). Eu só precisaria montar uma tripulação. O capitão foi fácil de arrumar, o Walter. Porém, ele tocar o barco sozinho seria muito pesado. Liguei para o Cainã, que foi nosso aluno e ele chamou o Neto, que também fez aulas conosco (hoje eles são donos do Pitanga, Fast 230). Em dez minutos o assunto estava resolvido.Três iriam no Manu  e eu e a Vivian no Malagô. O Rafael, do Oré Ygarité (Brasília 32), também viria. Mas levaria algumas horas para ele vir de São Paulo e tínhamos que partir.

Saímos do Pier 26 às 12h47 da sexta. Fomos rebocados até a Ponta Grossa. Lá encontramos ventos de SE e velejamos por ... uma hora, apenas. 

Uma hora de uma velejada deliciosa, a cinco nós, apenas no pano.
Depois foi no reboque, a três nós, para não forçar o Manu. Nada poderia acontecer com o barco rebocador, ou eu não me perdoaria. Para o reboque usamos vinte metros de um cabo em "v", na popa do Manu. Esse cabo se ligava a uma mola de inox, para reduzir os trancos. Na outra extremidade do cabo havia outro cabo em "v", amarrado nos cunhos de proa do Malagô. A distância total do conjunto de reboque foi de 60 metros e não houve tranco algum. O deslocamento do Malagô é monstruoso: 13 toneladas.

O sol se ponto na praia da Enseada, em Guarujá.

Uma noite longa se aproximava.

Apenas poucas correções de rumo eram feitas com o leme. No geral o Malagô se mantinha sozinho alinhado com a popa do Manu.

Até Ilhabela o mar esteve liso e não houve vento. Chegamos no Yacth Club de Ilhabela às 7h02. O Cainã e o Neto aproveitaram uma carona no veleiro Panda (Fibramar 34) e voltaram para Santos. O pior já havia passado. Ancorei o Malagô e eu e o Walter fomos até o posto com o Manu.  Reabastecemos  (gastamos 31 litros de diesel em 17 horas de navegação a motor) e uma hora depois continuamos nosso caminho para Ubatuba, rebocados.





A duzentos metros da poita soltamos o cabo de reboque e, apenas na inércia e numa manobra linda (pena que não levo jeito para vídeos), pegamos a poita de primeira, sem vela e sem motor. O Malagô estava em sua poita novamente. Ele voltou para a casa que ele tanto ama.

Não deu para curtir muito a Ribeira. Eu queria ficar, mas o restante da tripulação estava doida para voltar para Santos... Um tanto contrariado, mas sabendo que não se pode exigir muito de quem nos faz um favor,  aceitei invernar o Malagô em apenas quatro horas. 

Arrumando o barco para deixá-lo em Ubatuba.
Suspendemos da Ribeira antes do anoitecer e após uma travessia tranquila, sob o olhar da lua cheia, num mar de azeite (sem nada de vento), com alguns nevoeiros no través do Montão de Trigo, chegamos em Santos às 9h do domingo.

Se eu não tivesse optado pelo reboque com certeza estaríamos boiando até hoje. Avançaríamos algumas milhas quando houvesse vento, mas as perderíamos nas calmarias. Veleiros e agendas não combinam, eu sei. Mas às vezes temos que trabalhar com o que temos e achar soluções, ainda que isso signifique ser rebocado. A inflexibilidade pode ser pior que uma tormenta ou uma calmaria. 

O Manu, de volta a vaga no CIR, como se nada tivesse acontecido. Obrigado, Mauro! Eu amo seu barco.
Em breve voltaremos a usar o Malagô para nossas atividades em Ubatuba (e mais além, quem sabe?).

E vamos no pano mesmo! 




segunda-feira, 23 de abril de 2018

Estamos indo de volta para casa...

Boas!

O Malagô morou muitos anos em Ubatuba e  chegou a hora de levá-lo de novo para lá.

Estou muito animado com essa ideia, não só porque sei que ele gosta mais de lá do que daqui, mas porque há um detalhe: o motor do barco está lá em Ubatuba e eu irei levar o veleiro até lá apenas na vela, no pano mesmo.



Para quem acabou de voltar de uma travessia do Atlântico Sul, com quatro mil milhas, essas oitenta que separam Guarujá do Saco da Ribeira não deveriam representar muita coisa. Mas não é bem assim. Ainda dá frio na barriga fazer uma coisa dessas. Nesse trecho não venta muito e nessa época do ano é muito fácil para nós ficarmos em alguma calmaria. Esse é meu maior receio: passar uma semana no mar para fazer oitenta milhas... É claro que eu poderia instalar o motor antes. Mas que graça teria?

A data dessa travessia ainda não é certa. O barco ficou algum tempo parado e  estamos organizando de novo as coisas. Começamos tirando tudo que estava dentro dele. Muita coisa foi para o lixo; outro tanto eu nem lembrava que tinha e muita coisa precisou ser lavada, na pia. A bateria de serviço principal, de 150 amperes, não sustenta mais carga e terá que ser trocada. O automático da bomba de porão estava em desuso, pois sempre havia alguém no barco. Não dá para ficar sem ele na poita.

A partir de agosto o Malagô será novamente usado para cursos na base Ubatuba de nossa escola de vela. 

Iremos registrar o passo a passo dessa epopeia aqui no blog.

Antes disso aproveitei que estava em Santa Catarina visitando a Alice e fui até Itajaí ver a Volvo Ocean Race. Uau! Que máquinas! Quanta gente conhecendo a vela pela primeira vez e se interessando pelo assunto. E foi bom também ver amigos queridos.

Eu e a Alice.


A Marina Bruschi, que encontrei na sorveteria.





E vamos no pano mesmo!


Velejando no Nordeste...

Boas! Por conta do lançamento do livro A Travessia Azul, fiz palestras em algumas cidades para contar para as pessoas mais sobre o que ...