quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Camisa UV FPS 50+ 2019

Boas!

O verão está chegando e quem está no mar precisa se proteger do Sol.

As camisas com proteção UV no tecido ajudam muito aqueles que, como eu, esquecem de "retocar" o protetor solar de tempos em tempos.

Estamos lançando a nossa camisa UV, com fator de proteção 50. O design foi feito pela Marina do Mar e a qualidade é superior (pesquisamos muito antes de escolher o fornecedor).

As nossas camisas UV estão à venda diretamente conosco. Os pedidos podem ser feitos por e-mail, pelo Direct do Instagram (@cuscobaldoso) ou pelo nosso whastapp: 55 13 9 9790 8175.



E vamos no pano mesmo!

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Volta da Ilhabela em um Soling - Guilherme Borelli

Boas!

O Soling é um veleiro de 27 pés, armado em eslupe e sem cabine, para três tripulantes. Foi classe olímpica entre os anos 1972 e 2000. Projetado mais para a regata do que para cruzeiro, tem a quilha lastreada - o que lhe confere maior estabilidade. A primeira vista não seria um barco ideal para se fazer travessias em solitário pelo litoral de São Paulo. A despeito disso, o velejador Guilherme Borelli já acumula mais de cem milhas náuticas nessas condições.

O velejador Guilherme Borelli.

Primeiro Guilherme fez a travessia Santos - Ilhabela, a bordo de seu barco, batizado de Little NOOR. Agora, foi a vez da desafiadora Volta da Ilhabela, completada nos últimos dias 02 e 03 de novembro. Conversei com Guilherme sobre essa experiência. Vejam o que ele contou: 


Nome do Barco: Little NOOR
Modelo : Soling 
Plano Vélico : Bermudiano, vela grande e buja somam juntas 21,7 m² e um spinnaker de 45 m²
Motor :  Auxiliar de 8hp (utilizado como último recurso após adaptação na popa do barco).


Juca Andrade: O Soling possui 27 pés e é lastreado, o que o torna bastante seguro.  Ainda assim não possui cabine habitável, com banheiro, cama, cozinha. Em um primeiro momento isso pode fazer crer que o barco é desconfortável para travessias oceânicas. É isso mesmo?

Guilherme Borelli: Sim, é um barco lastreado, isso dá muita segurança à navegação, mas ele é desprovido de cabine, portanto não tem cama, banheiro nem cozinha. Não é um barco feito para travessias oceânicas e tem zero conforto.

JA: Você fez alguma adaptação no barco para fazer travessias? Como dormia, cozinhava, ia ao banheiro?

GB: Não fiz adaptações no barco. A comida levo pronta em bolsas térmicas. É uma alimentação pensada e difícil de estragar (ex: arroz integral, frango cozido , tubérculos, verduras, frutas e chocolate).  Banheiro....rsrsrs. Uso metade de uma garrafa para urinar e dispenso o líquido no mar, geralmente  faço isso agachado para não correr o risco de cair do barco. O n° 2 tem um pote maior separado, mas por alguma razão extremamente psicológica ainda não precisei utilizá-lo (rsrsrs). Durmo no cockpit em um saco de dormir.

JA: Antes da Volta na Ilhabela, você fez a travessia Santos - Ilhabela. Como foi essa experiência? Conseguiu fazer sem escalas e apenas na vela?

GB: A experiência foi fantástica. Fiz com uma parada nas Ilhas do Saí. E usei o motor em dois momentos, no primeiro dia ao sair do canal de Santos até a Ilha da Moela e no segundo ao deixar as Ilhas do Saí até a Ilha de Toque – Toque, o resto foi na vela. O interessante é que abri 15 Mn para fora para buscar vento  E  isso permitiu uma boa orça em direção às Ilhas do Saí no primeiro dia. O Montão de Trigo que fica a frente destas era constante na minha proa e crescia paulatinamente. É uma imagem que não sairá da minha cabeça.

Montão de Trigo, a Ilha que nunca chega...

JA: Sobre a Volta na Ilhabela. Você fez em sentido horário ou anti-horário? Saiu de que ponto da Ilha e que horas?

GB: A volta na Ilha foi em sentido horário. Parti as 15 horas da prainha logo atrás do YCI e retornei ao mesmo ponto exatamente às 15 horas do dia seguinte.



JA: Durante a travessia, qual a direção do vento predominante? Qual a altura do mar (ondas)? Qual a direção das ondas?

GB:  Durante a volta a Ilhabela no primeiro dia predominou um E de 10 a 15 nós e ondulação de NE, o mar não passou  de 1 metro , bem constante. O segundo dia amanheceu da mesma forma, porém às 7h30 da manhã entrou um vento NE muito forte de 30 a 35 nós com ondas de 1,5 a 2 metros de mesmo sentido, quando eu estava entre Ponta da Pirabura e a Ponta do Boi. Acredito que bati 11 a 12 nós de velocidade no Soling, não houve espaço para erros. Um navio de pesca que passava por ali ( Capitão Davi) tinha todos os seus tripulantes no convés observando o meu desempenho. Depois da Ponta do Boi  as montanhas da Ilha amenizaram esse sistema e a navegação ficou mais tranquila. Reencontrei o fim deste vento N na entrada do Canal.

No detalhe, o pequeno cockpit do Soling.


JA: Você levou pirotécnicos? Se sim, quais? Usou Spot ou algum localizador pessoal?

GB: Não tenho pirotécnicos ( me cobro por isso), uso o Spot como localizador e acho muito bom. Tenho um rádio de mão Icom.

JA: Que âncora vc usou? Quantos metros de cabo e quantos metros de corrente? O seu conjunto de fundeio se mostrou eficiente?

GB: Useiuma bruce de 5kg, com 3 metros de corrente e mais 40 de cabo. Funciona bem , mas acordo de hora em hora para verificar se não está garrando. Nas ilhas do Saí tive que refazer o fundeio, apenas uma vez. Na volta a Ilhabela, foi bem tranquilo.

JA: Houve navegação noturna?

GB: Na volta a Ilha havia planejado duas paradas, uma na Praia da Fome e outra no  Saco do Sombrio. Como as condições eram muito favoráveis no primeiro dia, resolvi ir direto para o Sombrio e isto me forçou a navegar de noite.

JA: Qual foi seu maior desafio pessoal nessa travessia? Chegou a ter momentos de tédio, esgotamento físico ou mental? Se sim, o que fez para lidar com isso?

GB: O maior desafio pessoal é se manter dentro do planejamento. Como o barco não tem cabine, coloquei em post its com a posição que eu deveria estar a cada hora  e procurava cumprir com elas aferindo no GPS. Tédio só existe quando não tem vento. Isso é fato para qualquer velejador. Não gostamos do barulho do motor e nem de ficar balançando parados no mesmo lugar. O esgotamento físico só sinto depois que pulo do barco e ele vem como uma tijolada na cabeça (risos). Esgotamento mental não há, porque o prazer é muito grande é o que eu mais gosto de fazer.

Os post its de planejamento.


JA: O que vc não levou que agora acredita que deveria ter levado? E o contrário, o que foi absolutamente desnecessário?

GB: Não levei um Boné, item básico e que fez falta nos momentos de sol forte. Sem falar nos pirotécnicos que não fizeram falta graças a Deus. E ao contrário , carreguei na travessia e na volta a Ilhabela uma linhada e uma faca sonhando em pescar  algo no corrico, doce ilusão, acho que não levarei mais.

JA: Vc acredita que travessias em veleiros de pequeno porte são "uma aventura", ou algo que pode ser feito de forma mais rotineira em nosso litoral?

GB: Não são uma aventura, definitivamente. As condições do nosso litoral são convidativas e propícias. Basta um bom planejamento.

JA: Vc acredita que a travessia de Guarujá a Ilhabela serviu de preparação para a Volta da Ilhabela no Soling ou as duas navegações foram muito diferentes?  
GB: Serviu e muito no preparo do barco, uso de equipamentos, planejamento da alimentação, etc.  A navegação em si, muda. A Ilha é diferente de Santos, que por sua vez é diferente do Saí. Os acompanhamentos das formações meteorológicas foi igual , começaram uma semana antes, mas estas obviamente foram diferentes entre uma e outra travessia.  Quanto ao psicológico, este fica cada vez mais forte.

A Ilha da Moela.


JA: E agora, qual o próximo desafio?

GBO próximo desafio deve ser Ilhabela –Alcatrazes – Ilhabela, sem paradas obviamente , porque o parque não permite. E existe um sonho crescendo aqui de fazer Santos – Rio, mas esse ainda é muito embrionário.

A carta náutica: chocadeira de sonhos embrionários.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

De um a quatro de novembro de 2018 - Muitas velejadas!

Boas!


Dizem que um mineirinho encontrou, certo dia, uma lâmpada. Ao esfregá-la, saiu um gênio que lhe concedeu três desejos. O mineirinho, então, pediu primeiro um pão de queijo; depois um outro pão de queijo e, por fim, uma Ferrari. O Gênio atendeu cada um dos pedidos, mas não pôde deixar de esconder sua admiração: "- Por que você me pediu dois pães de queijo e, no terceiro pedido, uma Ferrari?". O mineirinho prontamente respondeu: "Ah,é que eu fiquei com vergonha de pedir outro pão de queijo, uai".

Veleiro +Bakanna - Fast 230

Esse feriado de finados foi mais ou menos assim: velejamos dia 01, 02, 03 e 04 de novembro; dia 05 viemos trabalhar - não por falta de vontade de velejar, mas por vergonha de ficar tanto tempo no mar, uai!



De fato foram dias muito bons. Na quinta eu e a Vivi terminamos a formação do Severiano e da Kathya. Para comemorar, na sexta, velejamos com eles mais um pouquinho - com direito a voltar para marina na vela. Abre um parênteses: nesse dia, por culpa minha, encalhamos o +Bakanna (Fast 230) a menos de cinquenta metros da marina, numa das curvas do Rio do Meio. Com a desaceleração a Vivi voou até o estai de proa, ganhando alguns hematomas. Liguei o motor e desencalhamos dando ré, mas ela ficará de molho alguns dias.



Nesse mesmo dia o querido Pablo e sua família, que já fizeram aulas conosco aqui em Guarujá ano passado, foram velejar pela baía de Santos a bordo do Adhara, sob a batuta do Jefferson, com direito a mergulho na Ilha das Palmas.

Veleiro Adhara - Praia 30



No sábado o dia estava lindo, mas com pouco vento. Ainda assim o Rodrigo, o Celso, o Eduardo, a Juliana, o Severiano e a Kathya foram até a Laje de Santos. Distribuídos em três veleiros (Manu, Erva Doce e Adhara), o pessoal completou com louvor a navegação de 40 milhas náuticas, saindo às 09h da Marina e retornando às 19h. Deu até para dar um mergulho! 

Veleiro Manu - Velamar 31


A volta foi um pouco mais complicada, pois o vento que ficou escondido o dia todo resolveu sair todo de uma vez. A atracação dos veleiros foi bastante divertida! Soube que no Adhara o churrasco foi bem melhor que nos outros veleiros!

Recurso pedagógico do nosso curso básico de vela oceânica.

No domingo (ufa!), como não somos de ferro, fizemos um dia de vela com o Wagner e sua esposa. O dia de vela é um pré-curso. Serve para que as pessoas tenham uma ideia do que é um veleiro e como é velejar. Isso ajuda a decidir a fazer o curso de vela e custa muito, muito pouco. 



Esse mês, com a ajuda da meteorologia, terá várias atividades por aqui. Além dos cursos de vela (não temos mais vagas esse ano) e estamos preparando várias atividades para  manter o pessoal no mar, no pano mesmo!


terça-feira, 23 de outubro de 2018

De São Luís a Santos em um catamarã Praia 30 - Veleiro Adhara - Jefferson Neitzke

Boas!

Em 2012, quando eu comecei a dar aulas de vela a bordo do meu Atoll 23 Cusco Baldoso, o motor de popa morreu em definitivo. Uma das vantagens dos motores de popa em relação aos de centro é que trocá-los é muito mais fácil do ponto de vista monetário. Fui a procura e aqui em Santos encontrei um Mercury 8HP, que o Jefferson Neitzke estava vendendo. Ele também tinha um Atoll 23, o Goludo e para minha sorte ainda facilitou um bocado o pagamento (que incluiu um bote de apoio já bem usadinho). Nessa eu comprei um motor novinho e, de quebra, ganhei um amigo.

Tempos depois o Jefferson decidiu vender o Goludo e comprar um catamarã. Escolheu um Praia 30, da Maramar e, assim como outros amigos meus que fizeram a mesma escolha, sofreu o diabo para conseguir por o barco na água. De toda forma, superando todas as (imensas) dificuldades, no meio desse ano o Adhara foi finalmente batizado.

Após uma viagem teste de poucas milhas, foi feita a verdadeira viagem inaugural: de São Luís até Santos, pelo mar e com poucas escalas. Uma longa jornada, feita em trinta e oito dias.

Durante nossa participação na Adventure Sports Fair 2018, que aconteceu no São Paulo Expo nos dias 19, 20 e 21 deste mês de outubro, o Jefferson nos ajudou (muito) a atender o público em nosso estande. Durante um ou outro momento de folga, eu aproveitei para bater um papo com ele sobre a viagem e o resultado divido com vocês.

E vamos no pano mesmo!


Juca Andrade: Como nasceu a sua vontade de velejar? Que caminhos o levaram para o mar?

Jefferson Neitzke: Desde criança tenho contato com o mar, mas acho que de uma forma bem diferente da maioria dos velejadores. Meu pai era mestre de barco de pesca e meu avô motorista* das balsas que ligam Santos a Guarujá. Meu avô tinha um pequeno barco de pesca com motor de centro e ainda uma canoa caiçara. Desde os 12 anos eu o acompanhava nas pescarias. Na canoa caiçara eu o acompanhava sempre à noite, remando pelos rios Do Meio ou Icanhema, fazendo cercos de rede atrás de tainhas e robalos. No barco de pesca maior sempre íamos pescar na ponta grossa ou junto às boias de balizamento do canal do porto de Santos. Nessa época eu enjoava muito, ficava deitado no fundo do barco quase virando do avesso de tanto vomitar. Jurava que nunca mais voltaria mas alguns dias depois lá estava eu novamente oferecendo meu café da manhã aos peixes.

*condutor motorista é o tripulante responsável pela operação e manutenção dos motores da embarcação.

JA: Como foi o processo de escolha do barco? Por que um catamarã?
JN: Depois que cresci, já com meu avô falecido, estava decidido que precisava ter meu próprio barco. Sonhava com uma lancha pois não conhecia o mundo da vela. Certa vez fui em um Boat Show em São Paulo onde havia exposto um veleiro de cerca de 40 pés e me apaixonei. Comecei a pesquisar e percebi que um veleiro tinha tudo a ver com o que eu queria. Fiz um curso de vela em monotipos em São Vicente e outro em Santos. Fiz então um curso de fim de semana em Ilhabela, desta vez em barco de oceano. Naquela época eu costumava almoçar aos domingos na minha sogra. Ela cozinha muito bem e eu me via engordando, dia após dia, enquanto assistia os barcos velejando a partir da sacada do décimo andar do prédio dela na orla da praia. Eu precisava dar um basta nisso e comecei a ir mais a fundo nas pesquisas e contatos via internet. Pensava seriamente em construir eu mesmo um barco do Cabinho. Elegi o Multichine 31. Eu estava com cerca de 37 anos. Conheci um proprietário de veleiro que tinha o mesmo sonho que eu e deixou para realizá-lo após a aposentadoria. Tarde demais, agora ele estava com um problema de saúde que o impediria de curtir o seu barco. Isso foi mais que um empurrão pra mim, foi um verdadeiro tapa na cara. Decidi então comprar um caiaque. Sim, um caiaque. Oceânico, duplo, com leme. Top de linha. Eu ainda tinha receio que a compra do barco fosse fogo de palha, então decidi começar pelo caiaque. Adorei o barquinho, mas depois de um ou dois anos eu o vendi. Era hora de comprar um veleiro. Mas não ainda o definitivo, aquele de cerca de 30 pés. Levantei um empréstimo e comprei um Atoll 23. O barco tinha a minha idade mas estava novo, todo reformado e só precisei incrementá-lo. Foi uma ótima escola. Fiz alguns pequenos cruzeiros mas logo ele ficou pequeno para a família e amigos. Minha turma não é da vela e não ficava confortável com o barco adernado no contravento. Descobri então o catamarã modelo Praia 30, vendido novo a um preço inacreditável. Eu acreditei e paguei caro por isso. Tive que ir ao Maranhão finalizar o barco com as próprias mãos, injetando mais dinheiro que o combinado. Eu que já tinha desistido de construir meu próprio barco acabei me tornando eletricista, encanador, montador e mecânico além de gerente deste projeto e de outro barco também na mesma situação. Aprendi muito e posso dizer que conheço cada parafuso do meu barco.

JA: Sobre a travessia São Luis  - Santos. Quantos dias?
JN: Era pra ser no máximo 30, foram 38 dias. Coincidência hein?

JA: Sim, 38 dias nos alísios, parando toda hora em paraísos e comendo lagosta. Igualzinho à Travessia Azul ! - risos. Você veio para Santos sozinho ou com tripulação?
JN: Vim com um amigo, um verdadeiro irmão de mãe diferente, o Marcelo Kronka. Eu com pouca experiência, meu amigo com nenhuma.

JA: A que distância da costa foi feita a navegação?
JN: Inicialmente eu planejava ir para mar aberto sempre que possível, mas a recomendação que me deram no Maranhão foi de ir costeando pelo menos até Recife. Nós estávamos na pior época do ano para descer o barco para Santos. Até Natal enfrentamos vento contra constante de 20 a 25 nós. Corrente e ondulação também contra. Mais próximo da costa as condições seriam um pouco menos desfavoráveis e foi por lá que fomos. A maior parte do tempo naveguei apenas com a vela mestra em cima e com motores ajudando. Assim o barco sacolejou menos e conseguimos orçar melhor. Além disso, perto da costa tínhamos internet por boa parte do tempo. Após Recife começamos a velejar de verdade, mas ainda orçando e com o bordo bom sempre em direção à terra. A partir de Salvador tivemos velejadas memoráveis, mas sempre sem conseguir afastar muito da costa.

JA: Vocês passaram por alguma situação tensa ou perigosa? Algum momento "o que eu estou fazendo aqui?"
JN:  Eu considero dois momentos, um muito tenso e outro realmente perigoso. Muito tenso foi ao sul de Abrolhos, onde avistamos mais de 50 baleias. Uma delas surgiu de repente na proa, a cerca de 15 metros. Quase colidimos e na manobra de desviar rasgamos nosso pequeno balão. Perigoso, mesmo, foi por conta de um descuido meu quando pegamos uma rede de pesca a noite no litoral do Rio Grande do Norte. Estávamos navegando a motor e com a vela mestra em cima quando uma das rabetas enroscou na rede. O motor desligou na hora e o outro eu coloquei em neutro. Mas esqueci da vela em cima. O meu amigo mergulhou para cortar e rede, sem colete e sem estar amarrado ao barco. Quando ele conseguiu cortar a rede, o barco começou a velejar instantaneamente. Não sei como mas, o Marcelo conseguiu se segurar até que eu aproasse o barco ao vento e o ajudasse a embarcar de volta. Se ele tivesse ficado para trás muito provavelmente eu não teria como encontrá-lo a noite e ele teria que nadar cerca de duas milhas até a costa.

JA: Qual a cena mais bonita que você guarda da travessia?
JN:  Certamente foi a festa que um golfinho solitário fez no través de Maceió. Estamos acostumados a ver golfinhos acompanhando barcos e navios próximos à proa, mas este foi diferente. Saltava em todas direções, de todas as maneiras possíveis. Parecia alucinado, fazendo um show particular pra mim já que o meu amigo estava no seu turno de descanso nas primeiras horas da manhã. Outra coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de cores e tons diferentes nas águas do nosso litoral. Impossível descrever, só mesmo vendo.

JA: Que lição o mar lhe trouxe nesta travessia?
JN: Várias, várias e várias. A gente volta mais maduro de uma viagem dessas. A confiança aumenta, tanto a confiança no barco como em nós mesmos. Mas acho que o principal é aprender a esperar. Mesmos quando tivemos o vento e o mar ideal, ainda assim tivemos que esperar. Muito.

JA: E agora, quais os planos para o futuro?
JN: A ideia agora é curtir o barco com a família e amigos. Também estou preparando o barco para receber interessados em eventos, charter e travessias. O barco é muito confortável, seguro e versátil, permitindo muitas opções de lazer.

JA: Você também gosta de escrever e faz isso muito bem. Sai um livro dessa viagem?
JN: Estou pensando ainda. Tenho muita facilidade para escrever mas para mim é sempre difícil começar um projeto novo. Depois que começo, me dedico muito. Quem sabe em breve?


Galeria:


Dia de emoção: finalmente o barco está na água. Esperando a maré...

Fundeado para o primeiro pernoite em frente ao Farol de Santana - MA.

Amanhecer na Ilha do amor, em frente a Camocim - CE

N Marina Park, único lugar seguro (por conta da pirataria) para pernoitar em Fortaleza/CE

Co Cabo Calcanhar - RN, onde "o Brasil faz a curva".

Trocando a adriça em Salvador - BA, no TENAB

Fundeado em frente à mureta da Urca, no Rio de Janeiro/RJ

A emoção da chegada em Santos/SP

Apresentando o barco para a princesa, Laura, filha de Jefferson.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Velejando no Nordeste...

Boas!

Por conta do lançamento do livro A Travessia Azul, fiz palestras em algumas cidades para contar para as pessoas mais sobre o que vivemos ao longo dos trinta e oito dias de travessia do atlântico sul, de Ubatuba até Cape Town. A primeira dessas palestras foi em Sorocaba, ainda em março. Depois veio Santos, Paraty, Ribeirão Pires, Ilhabela (como programa oficial da Semana de Vela), Joinville, Rio de Janeiro e Angra dos Reis. Em algumas o Alan esteve comigo, mas por questão de budget isso não foi possível em todas. Uma pena, pois cantar "Quanto rizo, óh/Quanta goteira, óh/Santos  a Cape Town não é brincadeira/Você orça, orça, orça/E vai caçando a vela à unha/E nem vê Tristão da Cunha!" com ele é sempre muito mais legal.

Palestra no Rio de Janeiro - Clube de Regatas Guanabara - 22/08/2018
Graças ao Hans e ao pessoal do grupo Velejar, capitaneado pelo Sergio Chagas, eu iria fazer uma apresentação na Refeno, dia 28/09/2018, em Recife e durante o almoço de confraternização do grupo. O modelo do encontro, porém, não favorecia e eu não podia ir antes. Por essa razão, acabou não acontecendo. De toda forma, eu e a Vivian já tínhamos passagens compradas para Recife para o dia 28/09. Então, aproveitamos e fizemos um tour pelo nordeste, indo (por terra) de Recife até a Praia do Gunga, já no estado de Alagoas.

Nossa travessia começou por Olinda (que há quatro anos eu tento ir e não consigo, mesmo estando no Recife em 2014 e 2016).

A última vez que estive em Olinda foi em 1984, com cinco anos de idade.
Em 2016, a bordo do veleiro Fratelli, naveguei por essa costa (travessia Salvador / Recife). Uma das coisas que disse durante aquela velejada foi que "No fim das contas, velejar pela costa do Brasil tem sempre a mesma paisagem: água". Esse "quase lamento" se justificava porque estávamos afastados mais de trinta milhas do litoral e, a essa distância, só se vê água mesmo. Outros velejadores já me disseram que fazem esse trecho mais próximos de terra, mesmo na ida até Recife e que a visão é espetacular (embora outros tantos digam que se colar em terra com vento nordeste soprando, a viagem vira um martírio). Eu acredito que mesmo havendo barcos de pesca no caminho, fazer essa rota vendo o litoral deve ser mesmo mais bonito (até porque a trinta quarenta milhas, não há barcos de pesca, mas há navios). Da próxima vez que fizer essa rota pretendo fazer justamente isso.

Em nossa travessia por terra pudemos conhecer, mais de perto, o litoral que navegamos. E como ele é lindo! De tudo o que vimos destaco, primeiro, a velejada que fizemos na praia de Serrambim (Ipojuca/PE). Alugamos um Dingue com o Leo, no Resort homônimo à praia (R$ 180,00 a hora... doeu!). De Dingue eu e a Vivian fomos até as cercanias da Ilha de Santo Aleixo. A Vivian (que veleja desde os cinco anos de idade) ficou no leme, mas sofreu de amnésia temporária ("- Bordo é para cá ou para lá?"). Foi hilário e eu, claro, não perdoei essa mancada a viagem inteira.

Ipojuca/PE
 Na praia dos Carneiros andamos de lancha... pois é. Minhas hemorroidas doem até agora. Mas a beleza do lugar, com seu jacaré gigante e a pequena igrejinha na beira do rio compensam esse pecado.

Praia dos Carneiros/PE e sua Igrejinha.

Praia dos Carneiros/PE
Outro ponto que merece registro é o prédio de apartamentos que fica na cidade de São José da Coroa Grande, divisa entre PE e AL. Ele é o único edifício da região e na aterragem para Recife, vindo de Salvador, ele pode ser visto muito facilmente do mar, servindo como uma espécie de farol ou balizamento: passou o prédio, já se está em PE. Foi legal estar em sua portaria, pois eu me lembro de tê-lo visto no mar em 2016.

O edifício "farol" em São José da Coroa Grande - PE.

O azul (cor da moda esse ano) da praia da Barra Grande de Maragogi é escandaloso.

O Caribe é aqui também.


Barra Grande de Maragogi/AL


Na praia do Patacho (Porto de Pedras/AL) há um belo farol. Esse, porém, eu nunca vi do mar. Ficamos um dia ali e esse foi o único dia em que choveu. Aproveitei para andar a cavalo na praia e provocar a Alice em tempo real.

Eu e o Asa Branca.

Na praia do Gunga andamos de quadriciclo. Eu piloto moto, então seria fácil. Mas a cada guinada com o corpo o "trem" não fazia curva alguma e por conta disso demos de cara nos coqueiros algumas vezes. Foi o payback do Dingue para a Vivi. Fica a dica: em quadriciclos o movimento do corpo não altera a direção. Use apenas o guidão!

Pajuçara - Maceió - AL
Na praia do Francês fomos à forra. Havia quatro Hobie Cats 16 e um Hobie Cat 14 para alugar. Apenas R$ 100,00 a hora. Mas com um detalhe... se ao invés da locação o dono fosse junto, o valor caia para maravilhosos R$ 10,00 por pessoa, em um passeio de meia hora (duas pessoas saia por R$ 40,00 a hora)! Como essa matemática, velejamos duas manhãs inteiras entre a praia e a barreira de recifes, ouvindo as histórias do Sr. João, pescador que veleja sabe-se lá como, e do Bernard, esse velejador experiente. Para mim, que comecei no Hobie Cat 14 e não velejava há muitos anos nesses barcos, foi legal não errar nenhum bordo! Quem veleja de Hobie sabe que dar bordo nesses barquinhos é uma arte. Interessante foi notar a quantidade de "recursos técnicos" utilizados para manter o barco em pé e funcionando. Se por aqui lojas náuticas são uma raridade, imagine-se por aquelas bandas... então via-se desde estaiamento de cabo sintético comum (ao invés de aço ou spectra) até ajustes  ainda menos ortodoxos. Foi muito, muito legal!

Velejando entre a praia e a barreira de recifes.

HC 16 com Juca no leme. Detalhe do estaiamento de cabo sintético.

Perna Longa, um Cusco Baldoso Velejador.

Praia do Francês - Marechal Deodoro - AL
Na programação da Cusco Baldoso está nossa participação na Adventure Sports Fair, nos próximos dias 19, 20 e 21/10/2018 no São Paulo Expo (Rodovias dos Imigrantes) e mais uma edição - a terceira, na verdade - do Match Race Cusco Baldoso Fast 230 no dia 27/10/2018. Falarei mais sobre isso semana que vem.

É bom estar de volta.

E vamos no pano mesmo!




quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Vamos no pano mesmo...

Boas!

Sei que estou há tempos sem escrever no blog. Penso sobre isso e não sei exatamente o que está (ou estava) acontecendo.  Em parte uma das coisas que talvez tenha me motivado é ter histórias  que ninguém sabe. Assim, quando eu estiver a bordo, posso contá-las sem que logo em digam: "Sim, eu li no blog". Isso me fazia sentir como um vovozinho que conta histórias repetitivas.

Estou "por aqui" desde 2009. E nesses quase dez anos de conversas, muita coisa mudou. Eu continuo indo só até ali, velejando. Mas a forma de se comunicar mudou. Grande parte das pessoas, atualmente, ao invés de escreverem blogs, criam vídeos.

Semana passada, em Floripa, eu conversei com a amiga Marina Bruschi sobre esses novos tempos. Quando eu aprendi a velejar, lá na baía de São Vicente, o processo ainda era natural: professor, gritos, o mar, o veleiro e eu. Não havia blog, não havia vídeos. Entre eu aprender a velejar e começar a escrever o blog, passaram-se oito anos; entre eu aprender a velejar e começar a dar aulas de vela oceânica, foram doze anos. Hoje tenho quase vinte anos de vela oceânica, diversas travessias na costa do Brasil e um oceano cruzado à vela. Ainda assim, velejar até o "pirulito" ainda é divertido, como na primeira vez.

De 2001, 2002 para cá a coisa mudou um pouco de figura. Antes aprendia-se, depois ensinava-se. Em 2018 às vezes eu tenho a sensação que, de repente, todo mundo ficou bom em tudo e saiu fazendo coisas mirabolantes, que eu levei anos para fazer, do nada. Eu me incomodei com isso, é verdade. Mas confesso que era um certo exagero.

Depois do celular com internet e câmera, todos nós geramos conteúdo. E vivenciar a experiência alheia é um dos fetiches de nossa sociedade contemporânea. E não é que todo mundo tenha ficado bom em tudo. Isso foi uma certa rabugice minha, faço o mea culpa. O que tem acontecido é que hoje nós acompanhamos a curva de aprendizado alheia em tempo real.  Não é que alguns autores de vídeos fossem velejadores ruins: era , apenas, que eles estavam aprendendo. Eu, quando comecei a velejar de HC14, era muito, muito ruim. A diferença é que não tinha uma câmera registrando minhas mancadas (uma pena, pois daríamos muitas risadas hoje).

Se lermos esse o novo mundo com a fonte correta, ou seja, cientes de que somos partícipes do aprendizado alheio, e tendo em mente que algumas coisas não devem ser lidas como regras absolutas (senso crítico), a coisa fica até divertida.

Essa mudança de plataforma me colocou, por algum tempo, numa encruzilhada: continuo com o blog ou viro youtuber também?

Esse dilema meu segundo livro, A Travessia Azul, ajudou a resolver. Assim como a TV não acabou com o radio, ou a internet não acabou com o livro impresso, o youtube não acabará com os blogs e com a palavra escrita. Eu não sei fazer vídeos, mas consigo escrever de forma razoavelmente clara (embora alguns digam que eu falo difícil).

Virar youtuber me soa caricato; já escrever, natural. A forma como eu me conecto com quem lê essas linhas ainda me parece mais adequada para minha personalidade. Fora que, escrevendo, eu fico mais bonito.

As estatísticas do blog confirmam que ele continua sendo muito lido (aliás, como nunca antes, mesmo com minha pausa de  meses). O número de exemplares de A Travessia Azul vendido (tanto na versão física, quanto na digital, via Amazon.com) confirma que sim, muita gente ainda lê - e olha que o livro nem fotos tem (propositalmente). 

Então, o blog continuará e eu voltarei a escrever frequentemente.

De um modo geral estou em um ano novo particular. Para a Cusco Baldoso isso significa reformulação de ideias. A poeira baixou, dei novo formato a antigas parcerias e me desfiz de outras que não agregavam. Quem precisa de âncoras são os barcos, não nossos sonhos. A Cusco continua ativa, firme e forte e a cada final de semana mais e mais gente descobre e redescobre o prazer que é velejar. 

Concentramos nossas atividades em Guarujá, estando assim próximos de São Paulo e de seus aeroportos.

Criamos um novo logotipo (na verdade, a Marina Bruschi criou) e entrará no ar um nove site, em breve. E até faremos alguns vídeos, por que não? Mas o principal meio de comunicação com a comunidade náutica e entusiastas da vela e do mar será, ainda, o bom e velho blog Vamos no Pano Mesmo, que trouxe tanta e tanta gente para o mar.

Nossa proposta não é mais de ser apenas uma escola de vela, mas um porto seguro para os novos navegadores. E para os antigos também. Nosso objetivo é permitir que o aluno não faça apenas o curso, mas que se mantenha velejando, a um preço justo, depois do curso. Criamos mecanismos para que o aluno não seja obrigado, logo após passar três dias a bordo de um barco, a comprar um veleiro ou fazer um novo curso para manter-se velejando.

A "estrela" da escola não deve ser o instrutor, ou seu barco, mas o aluno! A escola existe em função do aluno, e não o contrário. O aluno não deve servir para "financiar a velejada do instrutor", mas para aprender e ser o protagonista de sua própria vida, o capitão de seu próprio barco.

Temos, como escola, que criar diversas oportunidades de aprendizado, engajamento e experiências e permitir que o aluno possa, em um curto espaço de tempo, velejar sozinho, sem instrutor a bordo.

Velejar sempre em um mesmo barco torna o aluno bom naquele barco.

Não! O aluno tem que experimentar vários barcos durante seu processo de aprendizado: grandes, pequenos, espartanos, luxuosos, com roda de leme, cana de leme, em cruzeiro, em regata, em travessia ou indo só até ali.

É possível e nós já fazemos isso.

É nisso que acredito.

Esses são nossos valores.

Obrigado a todos que nos seguem. A história continua.

E vamos no pano mesmo!

Galeria - alguns momentos de nossos alunos no mar entre maio e setembro 2018: