terça-feira, 23 de outubro de 2018

De São Luís a Santos em um catamarã Praia 30 - Veleiro Adhara - Jefferson Neitzke

Boas!

Em 2012, quando eu comecei a dar aulas de vela a bordo do meu Atoll 23 Cusco Baldoso, o motor de popa morreu em definitivo. Uma das vantagens dos motores de popa em relação aos de centro é que trocá-los é muito mais fácil do ponto de vista monetário. Fui a procura e aqui em Santos encontrei um Mercury 8HP, que o Jefferson Neitzke estava vendendo. Ele também tinha um Atoll 23, o Goludo e para minha sorte ainda facilitou um bocado o pagamento (que incluiu um bote de apoio já bem usadinho). Nessa eu comprei um motor novinho e, de quebra, ganhei um amigo.

Tempos depois o Jefferson decidiu vender o Goludo e comprar um catamarã. Escolheu um Praia 30, da Maramar e, assim como outros amigos meus que fizeram a mesma escolha, sofreu o diabo para conseguir por o barco na água. De toda forma, superando todas as (imensas) dificuldades, no meio desse ano o Adhara foi finalmente batizado.

Após uma viagem teste de poucas milhas, foi feita a verdadeira viagem inaugural: de São Luís até Santos, pelo mar e com poucas escalas. Uma longa jornada, feita em trinta e oito dias.

Durante nossa participação na Adventure Sports Fair 2018, que aconteceu no São Paulo Expo nos dias 19, 20 e 21 deste mês de outubro, o Jefferson nos ajudou (muito) a atender o público em nosso estande. Durante um ou outro momento de folga, eu aproveitei para bater um papo com ele sobre a viagem e o resultado divido com vocês.

E vamos no pano mesmo!


Juca Andrade: Como nasceu a sua vontade de velejar? Que caminhos o levaram para o mar?

Jefferson Neitzke: Desde criança tenho contato com o mar, mas acho que de uma forma bem diferente da maioria dos velejadores. Meu pai era mestre de barco de pesca e meu avô motorista* das balsas que ligam Santos a Guarujá. Meu avô tinha um pequeno barco de pesca com motor de centro e ainda uma canoa caiçara. Desde os 12 anos eu o acompanhava nas pescarias. Na canoa caiçara eu o acompanhava sempre à noite, remando pelos rios Do Meio ou Icanhema, fazendo cercos de rede atrás de tainhas e robalos. No barco de pesca maior sempre íamos pescar na ponta grossa ou junto às boias de balizamento do canal do porto de Santos. Nessa época eu enjoava muito, ficava deitado no fundo do barco quase virando do avesso de tanto vomitar. Jurava que nunca mais voltaria mas alguns dias depois lá estava eu novamente oferecendo meu café da manhã aos peixes.

*condutor motorista é o tripulante responsável pela operação e manutenção dos motores da embarcação.

JA: Como foi o processo de escolha do barco? Por que um catamarã?
JN: Depois que cresci, já com meu avô falecido, estava decidido que precisava ter meu próprio barco. Sonhava com uma lancha pois não conhecia o mundo da vela. Certa vez fui em um Boat Show em São Paulo onde havia exposto um veleiro de cerca de 40 pés e me apaixonei. Comecei a pesquisar e percebi que um veleiro tinha tudo a ver com o que eu queria. Fiz um curso de vela em monotipos em São Vicente e outro em Santos. Fiz então um curso de fim de semana em Ilhabela, desta vez em barco de oceano. Naquela época eu costumava almoçar aos domingos na minha sogra. Ela cozinha muito bem e eu me via engordando, dia após dia, enquanto assistia os barcos velejando a partir da sacada do décimo andar do prédio dela na orla da praia. Eu precisava dar um basta nisso e comecei a ir mais a fundo nas pesquisas e contatos via internet. Pensava seriamente em construir eu mesmo um barco do Cabinho. Elegi o Multichine 31. Eu estava com cerca de 37 anos. Conheci um proprietário de veleiro que tinha o mesmo sonho que eu e deixou para realizá-lo após a aposentadoria. Tarde demais, agora ele estava com um problema de saúde que o impediria de curtir o seu barco. Isso foi mais que um empurrão pra mim, foi um verdadeiro tapa na cara. Decidi então comprar um caiaque. Sim, um caiaque. Oceânico, duplo, com leme. Top de linha. Eu ainda tinha receio que a compra do barco fosse fogo de palha, então decidi começar pelo caiaque. Adorei o barquinho, mas depois de um ou dois anos eu o vendi. Era hora de comprar um veleiro. Mas não ainda o definitivo, aquele de cerca de 30 pés. Levantei um empréstimo e comprei um Atoll 23. O barco tinha a minha idade mas estava novo, todo reformado e só precisei incrementá-lo. Foi uma ótima escola. Fiz alguns pequenos cruzeiros mas logo ele ficou pequeno para a família e amigos. Minha turma não é da vela e não ficava confortável com o barco adernado no contravento. Descobri então o catamarã modelo Praia 30, vendido novo a um preço inacreditável. Eu acreditei e paguei caro por isso. Tive que ir ao Maranhão finalizar o barco com as próprias mãos, injetando mais dinheiro que o combinado. Eu que já tinha desistido de construir meu próprio barco acabei me tornando eletricista, encanador, montador e mecânico além de gerente deste projeto e de outro barco também na mesma situação. Aprendi muito e posso dizer que conheço cada parafuso do meu barco.

JA: Sobre a travessia São Luis  - Santos. Quantos dias?
JN: Era pra ser no máximo 30, foram 38 dias. Coincidência hein?

JA: Sim, 38 dias nos alísios, parando toda hora em paraísos e comendo lagosta. Igualzinho à Travessia Azul ! - risos. Você veio para Santos sozinho ou com tripulação?
JN: Vim com um amigo, um verdadeiro irmão de mãe diferente, o Marcelo Kronka. Eu com pouca experiência, meu amigo com nenhuma.

JA: A que distância da costa foi feita a navegação?
JN: Inicialmente eu planejava ir para mar aberto sempre que possível, mas a recomendação que me deram no Maranhão foi de ir costeando pelo menos até Recife. Nós estávamos na pior época do ano para descer o barco para Santos. Até Natal enfrentamos vento contra constante de 20 a 25 nós. Corrente e ondulação também contra. Mais próximo da costa as condições seriam um pouco menos desfavoráveis e foi por lá que fomos. A maior parte do tempo naveguei apenas com a vela mestra em cima e com motores ajudando. Assim o barco sacolejou menos e conseguimos orçar melhor. Além disso, perto da costa tínhamos internet por boa parte do tempo. Após Recife começamos a velejar de verdade, mas ainda orçando e com o bordo bom sempre em direção à terra. A partir de Salvador tivemos velejadas memoráveis, mas sempre sem conseguir afastar muito da costa.

JA: Vocês passaram por alguma situação tensa ou perigosa? Algum momento "o que eu estou fazendo aqui?"
JN:  Eu considero dois momentos, um muito tenso e outro realmente perigoso. Muito tenso foi ao sul de Abrolhos, onde avistamos mais de 50 baleias. Uma delas surgiu de repente na proa, a cerca de 15 metros. Quase colidimos e na manobra de desviar rasgamos nosso pequeno balão. Perigoso, mesmo, foi por conta de um descuido meu quando pegamos uma rede de pesca a noite no litoral do Rio Grande do Norte. Estávamos navegando a motor e com a vela mestra em cima quando uma das rabetas enroscou na rede. O motor desligou na hora e o outro eu coloquei em neutro. Mas esqueci da vela em cima. O meu amigo mergulhou para cortar e rede, sem colete e sem estar amarrado ao barco. Quando ele conseguiu cortar a rede, o barco começou a velejar instantaneamente. Não sei como mas, o Marcelo conseguiu se segurar até que eu aproasse o barco ao vento e o ajudasse a embarcar de volta. Se ele tivesse ficado para trás muito provavelmente eu não teria como encontrá-lo a noite e ele teria que nadar cerca de duas milhas até a costa.

JA: Qual a cena mais bonita que você guarda da travessia?
JN:  Certamente foi a festa que um golfinho solitário fez no través de Maceió. Estamos acostumados a ver golfinhos acompanhando barcos e navios próximos à proa, mas este foi diferente. Saltava em todas direções, de todas as maneiras possíveis. Parecia alucinado, fazendo um show particular pra mim já que o meu amigo estava no seu turno de descanso nas primeiras horas da manhã. Outra coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de cores e tons diferentes nas águas do nosso litoral. Impossível descrever, só mesmo vendo.

JA: Que lição o mar lhe trouxe nesta travessia?
JN: Várias, várias e várias. A gente volta mais maduro de uma viagem dessas. A confiança aumenta, tanto a confiança no barco como em nós mesmos. Mas acho que o principal é aprender a esperar. Mesmos quando tivemos o vento e o mar ideal, ainda assim tivemos que esperar. Muito.

JA: E agora, quais os planos para o futuro?
JN: A ideia agora é curtir o barco com a família e amigos. Também estou preparando o barco para receber interessados em eventos, charter e travessias. O barco é muito confortável, seguro e versátil, permitindo muitas opções de lazer.

JA: Você também gosta de escrever e faz isso muito bem. Sai um livro dessa viagem?
JN: Estou pensando ainda. Tenho muita facilidade para escrever mas para mim é sempre difícil começar um projeto novo. Depois que começo, me dedico muito. Quem sabe em breve?


Galeria:


Dia de emoção: finalmente o barco está na água. Esperando a maré...

Fundeado para o primeiro pernoite em frente ao Farol de Santana - MA.

Amanhecer na Ilha do amor, em frente a Camocim - CE

N Marina Park, único lugar seguro (por conta da pirataria) para pernoitar em Fortaleza/CE

Co Cabo Calcanhar - RN, onde "o Brasil faz a curva".

Trocando a adriça em Salvador - BA, no TENAB

Fundeado em frente à mureta da Urca, no Rio de Janeiro/RJ

A emoção da chegada em Santos/SP

Apresentando o barco para a princesa, Laura, filha de Jefferson.

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