terça-feira, 10 de julho de 2018

Deu merda...

Boas!

O acaso prega suas peças de formas bastante inusitadas. Essa história que contarei hoje, aqui no blog, mostra que a sorte pode estar escondida até mesmo em uma cagada...

Eu já contei aqui que em maio levamos o Malagô de Santos para Ubatuba, sem motor  e que na operação usamos o Manu, Velamar 31, do Mauro Pascotto. O que eu não contei foi a parte em que descobrimos um furo no casco do Manu nem como foi que descobrimos isso.

Ao chegar na Ilhabela, o neto, um dos tripulantes que nos ajudou na travessia (ex-aluno de nossa escola de vela, aliás), me contatou pelo VHF perguntando como fazia para o banheiro funcionar. Ele teve uma dor de barriga matinal e, após usar o vaso, houve certa dificuldade em "desembarcar" o material. Como não existe lá muito segredo em um vaso sanitário elétrico, minha resposta foi mais ou menos óbvia: "aperta o botão, uai".

O Neto, é claro, já havia tentado essa "manobra", sem resultado. Muito zeloso, ele tratou de tirar o que pôde com um balde e deixamos esse assunto para lá. O Neto e o Cainã desembarcaram na Ilha e, enquanto isso, eu e o Walter fomos no posto do Iate Clube abastecer o Manu de diesel.

Ao atracarmos percebi que a bomba d´água estava trabalhando de tempos em tempos, o que significava dizer que o barco estava fazendo água. Mas não foquei nisso. O importante era fazer o banheiro funcionar novamente, pois voltaríamos para Santos no Manu e aquele é um equipamento essencial (ainda mais porque teríamos a Vivian a bordo e mulher não faz pipi na borda).

O Walter esvaziou o paiol de popa procurando por algum registro ou algo que fizesse o banheiro voltar a funcionar. Nisso ele percebeu que havia um furo no casco. Não sabíamos que havia Tubolit Mep 301 a bordo (algo essencial em qualquer barco). Então, como era um furo, perguntei se um palito de dentes serviria para estancar. Era algo fácil de entrar no buraco e, molhado, expandiria, travando a inundação ao menos temporariamente. Para minha surpresa, o Walter me respondeu que um palito seria muito fino para o buraco, o que me fez ter um certo frio na espinha. Um parafuso, porém, serviria. Tratei de encontrar um parafuso e em dois minutos o problema foi resolvido. O do furo no casco, porque o banheiro não funcionou até o Guarujá. 

O problema do banheiro o Maurício Cassilhas, valente marinheiro, resolveu na marina: "excesso de material", que resumindo, entupiu o vaso e o colocou numa missão gloriosa, mas fétida. Já a origem do furo no casco era um pouco mais complexa.

Há alguns anos, um dos donos do Manu, que ainda se chamava Jazz 4, instalou um par de luzes subaquáticas - dessas que as lanchas adoram, às vezes com gosto duvidoso. O sistema não funcionou bem e elas foram retiradas. Porém, ao invés dos furos serem laminados com resina e fibra de vidro, passou-se uma massa e tinta por cima. Quando fomos para Ubatuba, eu contratei um mergulhador para limpar o fundo (o Roberto, no Pier 26). Ao tirar uma craca, esta provavelmente estava presa na massa que segurava o furo. Ao ser retirada, a massa veio junto e a água começou a inundar o barco.

Se o banheiro não tivesse entupido, provavelmente não perceberíamos o problema e o barco poderia ter sido inundado de forma irremediável. Subimos o barco no seco e tratamos de fazer o serviço como deveria ter sido feito antes:laminamos uma área bem maior do que a dos quatro furos e pintamos o casco.

E fica a lição: às vezes até as merdas que os outros fazem salvam nossas vidas - ou barcos.

E vamos no pano mesmo!



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