De Ubatuba a Santos...

Boas!

É incrível como o mar pode estar em diferentes estados com apenas poucos dias de diferença. Se nós nos curássemos de nossos dores tão rápido quanto ele, talvez fôssemos mais felizes. Depois da forte ressaca que entrou no dia vinte e oito de abril, naquela segunda-feira, primeiro de maio, o mar estava tranquilo e sem vestígios de tormenta. Tudo na vida passa; até a uva, a tempestade e a calmaria...

Iríamos participar da última regata do dia e depois ir embora para Santos, por volta de 19h. Mas... regata? Fala sério. Fomos apenas para passear e nossa presença na raia, de certa forma, era uma ofensa aos que velejavam a sério, com faca nos dentes. 

Aproveitei a manhã para visitar o Eduardo , do Erva Doce (Bavaria 33) e o Marcelo, do Fratelli (Delta 36), que chegaram na noite anterior (enquanto estávamos na Ilha Vitória). Ao meio dia, saímos.



Isso me lembrou uma vez que viemos de Paraty a bordo do Cusco Baldoso, eu e o Ricardo Stark. Perguntei se ele preferia velejar por oito horas ou motorar por quatro... Velejamos do Saco da Ribeira até a Ilhabela, até anoitecer, a dois nós.



Dessa vez foi quase isso. Desligamos o motor antes do Mar Virado. O vento entrou e tocamos bem devagar. Deu até tempo de cozinhar um macarrão, que sob a chama fraca do fogão do jazz levou apenas umas cinco horas para ficar pronto - mas ficou delicioso! Tudo indicava que seria uma travessia lenta. Mas a medida que as horas passavam, o vento só fazia aumentar, entrando de sul e nos permitindo velejar de través  até a Vila, na Ilhabela, com o barco atingindo picos de oito nós de velocidade e média de seis.


Dividi o leme com o Rafael, que naquele mar tapetinho não enjoou - conseguiu até almoçar dentro da cabine e tirar um cochilo, sem baterias incendiárias. Esse era um fantasma a ser exorcizado. E por falar em fantasmas, eu também tinha lá os meus. Há oito anos eu estava nesse mesmo trecho, nesse mesmo primeiro de maio, trazendo o Rio 20 Cusco Baldoso de Paraty para Santos, com apenas uma escala. Foi uma travessia muito difícil, pois fiz tudo errado. Mas ao término dessa torturante jornada soube que a Alice, minha filha mais nova, estava chegando nesse mundo. Tanto depois depois eu estava, nesse mesmo dia, a bordo de um veleiro e na mesma travessia, em mais uma transição na vida. Perdia uma parte importante de mim por um lado, e de outro descobria que sempre há novos caminhos para trilhar - porque para ser feliz é preciso coragem. A família que deixei em Santos na ida, não seria a mesma da volta, nem eu teria nela o mesmo lugar. Mas, assim como o mar, as tempestades da vida também se acalmam uma hora ou outra, em seu devido tempo.O importante é não descuidar da navegação e ajustar as velas, sempre.



A Ilhabela abrigou o vento sul, que morreu. Ligamos o motor. O diário de bordo registra que às 16h47 acertamos um tronco semi submerso, mas sem danos. Como sempre faço, pouco antes do pôr do sol rizamos a mestra na primeira forra.  Às 18h30 o vento voltou, de leste, o que nos permitiu voltar em asa de pombo até a Ilha da Moela (que o Rafael insistia em atravessar pelo meio, já tomado pelo sono). Chegamos no clube às 02h, tendo deixado a oferenda para Netuno (chocolate) na entrada da Fortaleza da Barra. Depois disso, nesse mesmo dia, fui jantar com a Alice - a única que tem a maturidade necessária para entender minhas decisões.



E vamos no pano mesmo!

Comentários

  1. Parabéns pelo excelente texto professor! O curso de vela que inicia dia 20 de maio, está confirmado?

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  2. Aprendi muito naquela vez, Juca!! Foi uma honra e uma oportunidade incrível!! O Atoll é mesmo um 'barcão' !!
    Abraço!!

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