Um certo veleirinho Rio 20...

Boas...

Um belo dia anunciei uma canoa canadense no site da BL3. Poucos dias depois um sujeito todo falante me ligou. Marcou um dia e veio até Santos conhecer a tal canoa verde, que dei o nome de Ritta, em homenagem à minha mãe (a canoa, assim como minha mãe, era muito boa, mas precisava de uma reforminha).

Foi assim que conheci meu amigo José Carlos. Fechamos o negócio, ele me deu um cheque e só voltou para buscar a tal da canoa três meses depois. Assim era o Zé. 

No dia em que ele finalmente veio buscar a canoa, fomos jantar e nos tornamos amigos. Ele virou meu dentista e eu, o advogado dele. Ah, como seria lindo se ele fosse trilhardário: porque um bom rolo era com ele mesmo! Quando ele me ligava eu já sabia que vinha história e que eu entraria no carro para uma longa viagem - pois rolo perto de casa não era a especialidade dele. Era hilário.

Assim como eu ele era chegado em uma tranqueira. E tinha muitas. Foi nessa que entre muitas trocas que fizemos, dei um Gurgel X-12 que  tinha em troca de uma CB-400, ano 1981, cinza  e maravilhosa. De quebra, ganhei  um brinde. O Zé era velejador e entre as bugigangas que ele tinha, havia um casco de veleiro Rio 20 que ele salvou do afundamento na Marina do Brachuy: o Equinoster. Ele mesmo mesmo mergulhou e fez o barco flutuar novamente, repleto de cracas. 



A reforma do veleiro tinha tudo para dar certo, pois não teríamos custo com local para guardar, já que a reforma poderia ser feita no terreno da casa dele, lá na Guarapiranga, pertinho do Farol e do Solo Sagrado.  Além disso era só dar uma lixadinha!

Eu e um amigo lixamos o barco inteiro, por dentro e por fora e depois de meses nesse trabalho de limpeza, perdendo sábados e domingos, ficamos quase um ano sem querer sequer pensar no assunto. Pouco tempo depois vendemos o casco, pois era claro que a empreitada não valia a pena. Mas sem crise: ficou a amizade do Zé. 







Em fevereiro do ano passado, em uma quinta-feira, ele me ligou. Mais um pepino. Eu, apesar de ser mais novo que ele, assumi um tom paternal e lhe passei um sermão... mas um sermão caprichado. Ele tinha um consultório em São Paulo e outro no interior. Fazia 500 km dia sim, dia não. Cuidava de um monte de gente, mas não se cuidava. Tinha um veleiro em Paraty, mas não velejava há uns oito anos. Tinha um veleiro em casa, que virou floreira. Tinha um fusca para reformar, uma moto para consertar. Tinha uma canoa verde. Tinha uma esposa, um filhinho de oito anos... "Muda  de vida, Zé! Vai curtir sua família! O mais perigoso dessa sua vida louca é que você começa a achar que essa correria é normal!" Falei com ele em uma quinta. No domingo, ele faleceu vítima de um infarto fulminante, aos cinquenta anos de idade, sem ter realizado um décimo de seus sonhos e atropelado pelo dia a dia. E assim como um monte de gente, eu sinto saudades dele.

E vamos no pano mesmo. 

Comentários

  1. Pois é, Juca
    O duro é fazer a pessoa acreditar nisso!!
    Outro dia li a seguinte frase que ilustra bem o acontecido:
    '...se você acha a aventura perigosa, tente a rotina!! É fatal!!...'

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  2. Sinto muito pela perda, Juca. Mas pior que morrer é viver sem histórias.Grande abraço

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  3. caraca...cada história aqui, fazem a gente refletir sobre a vida...Legal que não dá pra prever o final...a que achei que ia terminar mal terminou bem (a do tiozinho que mesmo desacreditado e tendo o revés do primeiro dia do curso reuniu suas forças e conseguiu acabar o curso de 3 dias)...e esse que achei que ia terminar bem, terminou mal ... que Deus o tenha ! e eu aqui planejando o melhor momento para adquirir minha cota compartilhada ....mais cedo ou mais tarde esse dia chegará ! []´s

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