O mais longo dos dias - parte IV

"- Imagina se o Júlio França estivesse aqui?" -  provocou o Cassio.  Eu ri. Na travessia para Ilhabela eu praticamente o embarquei a força, pois ele estava receoso. Tudo tem seu tempo. Se pegamos aquela  porranca é porque era a hora. Pior seria se eu estivesse com a Pri e as meninas, o plano original...

Amanheceu e voltei para o convés. Estavamos um  pouquinho mais perto da  costeira,  mas ainda seguros. O mar trazia ondas de três metros, algumas maiores. O barco capeava magnificamente bem. Tentei abrir a vela, mas o enrolador travou. Os restos do lazy jack se projetavam como lanças para fora do barco e se enroscaram nas escotas.Fui até a proa, deitado no convés. Livrei parte do enrosco, mas não foi suficiente.O Ivan, atado ao cinto, surgiu meio que do nada e me ajudou. Voltamos para o poço e abrimos a genoa. Meu plano era voltar para casa de través. 

Mas não seria tão simples. Ao abrir a genoa a capa foi para o espaço. O barco andava em círculos, procurando sempre ir para a praia! Mais grave, a velocidade subiu de meio patra quatro nós. Em menos de duas horas estariamos na praia  e tudo estaria perdido. Não consegui aceitar essa ideia. Liguei o motor. Quarenta graus. Mantive a rotação baixa, para retaradar o aquecimento. Retomei algum controle de leme, mas o barco não orçava de jeito nenhum. Sessenta graus. Andava em círculos, mas o rumo final ainda era a costeira.  

"- Vou tentar entrar no Indaiá" - disse para o Ivan. Mas, claro, essa ideia logo passou, pois era impossível: a medida que chegassemos perto da praia, as ondas só iriam piorar. O mais seguro era ir para longe. Setenta graus. Pus a proa no rumo sul magnético e toquei. O motor então chegou a oitenta graus. O Ivan voltou para dentro da cabine. 

Foi então que tomei uma decisão difícil. Não na execução, mas em sua popularidade: voltar para o Montão de Trigo.  Isso seria algo como dirigir a noite toda entre São Paulo e Florianópolis e, depois de Joinville, resolver voltar para encher o tanque do carro em Santos. Coloquei a proa no Montão - que sequer podia ser visto, em meio a névoa -  e o barco foi surfando as ondas. O motor ficou a oitenta graus.

O frio me matava e uma das poucas - senão a única - alegria que tiv nesse dia foi fazer xixi na calça. Esquentou meus pés e foi muito gostoso.O mar nos dá outras perspectivas na vida...

Algumas horas depois o Cassio veio me render no leme. Expliquei nosso rumo. O barco seguia a dois nós, mas avançava e o motor não esquentou mais além dos oitenta graus. No mau tempo uim porto a sotavento, por mais longe que esteja, será sempre mais fácil de se chegar do que um a barlavento...

Ainda não estava tudo resolvido. A impopularidade da minha decisão precisava ser contornada.Chamei Delta 24 o radio e expliquei a situação.Pedi um acompanhamento de hora em hora para reportar a situação e a posição. A operadora foi super gentil e prestativa. Anotou os dados do barco, de nossa marina e da Priscila, para o caso de...  A tripulação se trranquilizou ao saber que não estavam tão sozinhos quanto pensavam. Ou pelo menos se confortaram com essa ilusão...

Conseguimos avistar o Montão de Trigo apenas a menos de uma milha e meia de distância. Ao nosso redor apenas névoa branca, ondas altas e um vento mais ameno. Ao  meio dia lançamos ferro. Estavamos em um abrigo!

Bem, comparado a condições normais abrigo é um baita de um eufemismo. Balançava bastante. Mas era melhor do que "lá fora".

Assim que nos estabilizamos começamos a por ordem na casa. Fui tomado por uma onda de frio e deitei um pouco, enquanto os meninos arrumavam as coisas espalhadas por todos os lados. Tudo estava encharcado. Para vestir me sobrou apenas um short john e uma camiseta com o emblema do Super Man que ganhei na escola da Alice no dia dos pais. Ela tem uma igual, mas adequada para o tamanho dela.

Fizemos contato via VHF com o Iate Clube de Barra do Una e conseguimos um transporte com um pescador do Montão de Trigo, para desembarcar o Rodrigo e o Ivan. Eles teriam que estar em São Paulo na segunda de qualquer maneira. O André e o Cassio também tinham, mas foram sensacionais e ficaram comigo. Obrigado! Depois do almoço eles foram para terra. Valeu galera!

Entrei em contato com minha casa via celular e algumas vezes com o Alan Trimboli. Decidi que só sairia dali com tempo bom, mesmo que ele demorasse a chegar. A previsão para a segunda-feira, porém, não poderia ser melhor: ventos de leste e sueste, até oito nós.

Consertei a mestra no fim da tarde. Estavamos sem talas, mas dos males o menor.Voltamos a ser um veleiro! Encontramos alguns objetos estranhos no compartimento do motor: pratos, talheres e uma câmera filmadora, mas há controvérsias sobre o momento em que esses objetos foram parar ali.

Dormimos o dia todo. O jantar foi feito pelo Cassio, que arrumou um problemão: já não sei quem é o melhor cozinheiro, se ele ou o Ivan!

A noite o tempo abriu e a lua cheia deu um espetáculo, em harmonia com a silhueta do Montão. Por vezes eu ficava impaciente, mas ai olhava para o emblema do Super Man na camiseta e melembrava da Alice e das meninas. Não podia fraquejar. Não iria!

No dia seguinte, às 06h00 acordei e perguntei para meus tripulantes: "- Quem quer ir para casa?"

Às 06h30 já estavamos velejando.  O motor foi ligado para ajudar,já que o vento era ainda fraco e voltou ao normal, trabalhando abaixo de sessenta graus. Vai entender... No través de Bertioga chamei o Iate Clube de Ilhabela para agradecer o apoio: "- Estamos em condições plenas de navegação!". Liguei para casa e depois de saber das novidades a Priscila caiu no choro...

Secando...

... lavando...


Voltando para casa.

No meio da tarde atracamos na Boreal. Para minha surpresa e pela mais absoluta coincidência, se é que isso existe mesmo, minha pequenininha Alice estava vestindo a camiseta dela de Super Man! Ai quem caiu no choro fui eu, mas deu para disfarçar...


Era o fim.

Chegamos.

 Palavras não são suficientes para agradecer as várias pessoas que nos ajudaram. Em primeiro lugar eu devo agradecer a minha valente tripulação, que mesmo possuindo instrumental limitado soube se comportar de maneira exemplar, mantendo o moral a bordo o melhor possível. Então, obrigado ao Cassio, ao Ivan, Ao André e ao Rodrigo. O que nós vivemos só nós sabemos e levaremos isso para  resto de nossas vidas. Várias foram as lições.

Milhões de obrigados, ainda, ao Alan Trimboli, que monitorou nossa situação o tempo todo, em conjunto com o Volnys Bernal.

Quatrocentos milhões de obirgados ao meu irmãozão Ricardo Stark, que conseguiu  tranquilizar a Priscila. Eu imagino o trabalho que isso deu! E a ela, Priscila, meu amor, bilhões de obrigados por saber me esperar...

Obrigado, claro, ao nosso velhinho, o Malagô,que foi protagonista nessa história - até porque tem momentos que ele só faz aquilo que quer!

E obrigado a todos que pensaram na gente positivamente.

Bons ventos e estrelas à barla, sempre!




Comentários

  1. Juca, vou abandonar a cerimônia e escrever o que estou sentido:
    "PUTA QUE PARIU CARA QUE LOUCURA FOI ISSO!?"
    Fiquei eufórico enquanto lia seu depoimento, a adrenalina fez seu trabalho enquanto eu lia seus posts!
    PARABÉNS COMANDANTE, você realmente é O CARA!
    Parabéns a tripulação e ao velho Malagô!

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    1. Sou o cara nada, meu! Usei fralkdas geriatricas muito boa,s que não deixaram transparecer o medo! kkkkkkk Valeu pela torcida!!!

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  2. Amigo Super Man, que susto heim.... parabéns comandante, por ter safado toda a tripulação e o barco (e por ter se safado)... o mar tem dessas... há que estar preparado... parabéns MALAGÔ, que mais uma vez mostrou sua força ao "segurar" a bronca... Abraços ;) Fernando

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    1. O Velhinho foi Super! Valeu Fernando! E vamos no pano mesmo!

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  3. Juca, um bom comandante é aquele que toma as decisões certas na hora certa. Você pegou condições mais difíceis que a nossa, com restrições no equipamento. Apesar de não ter medidor de vento, creio que não pegamos mais que 30 nós.

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    1. Pois é, eu fiquei memso com a impressão de que para nós a coisa foi um bocadinho pior. Nunca vi um mar tão violento... mas passou e vamos preparar o próximo encontro das Ilhas!!!

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  4. Parabéns Juca, não somente por ter sabido conduzir o Malagô e sua tripulação de forma competente, mas também pela forma sensata e transparente de seu relato.
    Ficam os ensinamentos para todos nós.
    Abraços
    Paulo Ribeiro
    Bepaluhê

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    1. Primeiro parabéns para vc, pois hoje é seu aniversário! Eu sempre relato minhas besteiras, pois de super man eu só tenho a camiseta!!!

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  5. De tudo que vc relatou, duas coisas ficaram muito claras na minha cabeça de iniciante: 'motor de veleiro é a vela' (PERFEITO!) opinião a qual tb sempre concordei e sua decisão em 'arribar' para o Montão de Trigo que se mostrou a melhor, muito embora tenha relutado em assim decidir !! Velejei há alguns anos atrás com o Yamandu no veleiro Triana e ele sempre dizia: "o perigo de quem navega é a terra, nunca o mar'!!Parabéns Capitão Juca Andrade!!

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    1. É isso ai! Não dá para numa hora dessas ter pressa em voltar para casa...

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  6. Parabéns Juca, as palavras fizeram o seu papel, reproduziram o máximo que podem, e com perfeição, os momentos que vivemos ali, mas como você mesmo disse viver tudo isso foi algo indescritível para nós 5. Ainda estou tentando assimilar tudo o que aconteceu, como as coisas foram se desenrolando para que pudéssemos estar hoje aqui contando tudo isso, decisões tomadas pelo destino como arrumar um compromisso para a Priscila no dia da velejada, o motor que hora esquenta hora não, até o pressentimento da minha mãe...sei la..parece que foi tudo escrito muito antes de tudo começar por alguém que quer nos lembrar de quão preciosa é nossas vidas e as pessoas que gostamos. Obrigado por tirar a gente daquela e pela experiencia vivida...obrigado mesmo...

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    1. Meu amigo... vc estava lá. Vc viu. Palavras não servem de nada. A gente voltou junto e é isso o que importa.

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  7. Parabéns a todos ! .Espero que os próximos posts não relatem quebras, nem problemas .Mas todos nós sabemos se houverem terão sempre um grande Comandante e sua tripulação para resolve-los Abração e bons Ventos.

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    1. Naqda, o próximo post é de uma beleza estonteante, vc vai ver! kkkk

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    2. Falando nisso tem um relato de um Cap. que é seu seguidor ele naufragou na praia de Cibratel I , em Itanhaém. quem não leu vale a pena. Segue o link http://indomavel-osonhofeitoamao.blogspot.com.br/

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  8. To passada... rsrs... me deu mais vontade ainda de fazer o curso.... e nós lá preso no transito quando você ligou pro meu pai hahahaha .... aiaiaiaiaia parabens !!!

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    1. Estamos lhe esperando! E veja se traz o papai junto!!! kkkk

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  9. Juca... Tentei escrever várias coisas aqui para enaltecer sua vitória e não consigo chegar aos pés com palavras do que realmente foi a sua experiência.
    E que time, heim? Nao é pra ninguem! Me sinto honrado de ter um professor assim e conhecer quase todos os colegas;

    Alem de excelente capitão, escreve com maestria.
    Pelo relato senti o frio, me mijei nas calças e chorei com a foto da pequena com a mesma camiseta!!!!

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    1. Aruã, meu filho... a cada dia me convenço que sopu melhor escritor do que velejador, kkkkkkkkkk! Bons ventos e obrigado por sua amizade.

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  10. Ops, foi o Aruã que escreveu.
    Abs

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  11. Amigo Juca, eu só fiquei chateado de eu não ter participado deste aprendizado. Sério. Muito obrigado por compartilhar as lições da faina. Também aprendi a importância de ter dois conjuntos de bateria para segurar a bomba de porão… Abraço e Bons ventos

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    1. É isso ai! Sua mochila com mil e uma utilidades seria de grande valia! Bons ventos, Júlio!

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  12. Juca, pela segurança de vocês (Malagô incluso), desejaria que esse episódio nunca tivesse ocorrido.
    Mas, já que ocorreu, digo que isso deu a vocês a oportunidade única de provar do que são capazes.
    Deu-lhes um conhecimento, técnico e emocional, que acredito não ser possível obter em situações mais amenas.
    Provou, indiretamente, que você está a um passo de se tornar um escritor de sucesso.
    Parabéns Comandante, parabéns Tripulação, parabéns velho Mala!

    Abraços,
    Marcello Yesca

    P.S: E afinal, alguém teve tempo de enjoar na volta?

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    1. Grande Marcello! Quando o medo é demais, o enjoo vem de menos! kkkkk Apareça!

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  13. Que relato extraordinário Juca!!! Além de comprovar seu talento para a narrativa, uma clara amostra de como o preparo e a experiencia, no mar, são a diferença entre "ir e voltar para contar no post" e uma histórica trágica.... Parabens a vc e a toda a tripulação pelo desempenho.

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    1. Grande Tiago! Valeu pela força! Apareça, pq vc anda sumido!!!

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    2. Opa Juca.... Me convide que eu apareço sim! :-).... Um abraço!

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