O mais longo dos dias - parte III

O vento entrou, mas não veio tão forte quanto eu esperava. Coisa de vinte nós e, vinte nós, devidamente rizados, não matam ninguém. Vento de través, vindo de sul. Mar crescendo, mas nada absurdo. Ainda sem motor, nem reclamavamos mais pois íamos entre seis e sete e poucos nós direto para casa. Motor de veleiro é vela!

Acertadamente  coloquei nosso rumo não para as proximidades do Indaiá, mas sim para a Moela. Uma aproximação no Indaia seria feita com ele bastante ao largo, pois havia o risco de estando perto demais, fossemos conhecer sua costeira. Isso salvou o  barco e, talvez, nossas vidas.

O Malagô pôs suas artroses para trabalhar. Zumbia, rangia, gritava...a madeira viva que lhe habita produzia os sons mais inusitados. Improvisei um "preventer" na retranca, deixei o Cassio e o Rodrigo no convés e  voltei para dentro, para tentar dormir. 

Quando o vento de vinte nós começou estavamos no través de boracéia. As 03h00 da manhã, no exato través do Indaiá, aconteceu: o vento entrou de verdade. Mas de verdade mesmo. Eu estimo em mais de quarenta nós.O mar ficou branco. As ondas quebravam no convés. Um uivo estridente não saia do ar e falar uns com os outros era praticamente impóssível. A velocidade do barco foi para as alturas e os choques com as ondas extremamente violentos.

"-Muito pano em cima, o mastro não vai aguentar" - pensei.  Com a ajuda do Ivan vesti o cinto de segurança.Ele também vestiu um. O Rodrigo voltou para dentro da cabine e ficou com o André, que recém atingido por uma prateleira voadora trazia um galo feio na testa.  Muitas goteiras de água salgada. Medo. Atado à linha de vida, fui até o mastro. Pedi para o Cassio jogar a proa um pouco mais para o vento. A vela desinflou e comecei a descê-la. 

Ali, agarrado ao mastro, algo surral aconteceu: ao invés de pavor,  ou pânico, eu só conseguia olhar para a água branca e sentir uma paz indescritível. "- Como isso é bonito", eu me pegava pensando "-Que coisa mais linda!". Devem ter sido cinco ou dez segundos, mas duraram minutos em minha mente. Paz e beleza. Era tudo o que eu sentia. Juro que nunca havia visto algo tão lindo no mar... Devaneios?

Voltei a mim ao pensar nas meninas. Também retomei a objetividade ao constatar que se alguém caísse no mar naquelas condições dificilmente contaria a história depois. A mestra desceu bem, mas o lazy jack voou pelos ares. Com isso ela caiu dentro da água e formou uma barriga. "-Explode, vela!" - gritei.  Tentei embarcá-la novamente, mas sozinho seria impossível. O barco subia e descia as ondas - o mar cresceu bastante. Com muito dificuldade, pois era dificil caminhar sem que o vento me derrubasse, fui até a popa e cortei com uma faca  o cabo do rizo. Não ajudou em nada a não ser tornar as coisas piores: a barriga submersa da vela aumentou e o pino que segurava a valuma na retranca estourou. Minha vela mestra é alemã, tem mais de quarenta anos e aguentou esse esforço ilesa: quem gritou foi o pino. "- Mania que alemão tem de só fazer coisa boa!" - pensei.

Com a vela fora da retranca foi mais fácil embarcá-la novamente, com a ajuda do Ivan. Veio a chuva, com violência extrema. Dei um jeito de estivar a vela por cima do convés - do jeito que deu e não foi bonito - e pedi para o Ivan voltar para o convés.

Sem a vela mestra o controle do leme foi para o espaço. Estavamos a oito milhas do canto do Indaíá, em Bertioga. Por sorte bem afastados de terra e em um local onde passam poucos navios. O problema eram os pesqueiros, mas o que fazer?! Mantive todas as luzes de navegação acessas. Olhei para o Cassio e percebi que o leme estava travado para bombordo. Um pedacinho de genoa estava armado para boreste. O barco "travou" alinhado a quarenta e cinco  graus com as ondas. Não ia para a frente e derivava a meio nó para a praia. Marquei a fiaxa de areia mais próxima como alvo e o GPS nos indicava que bateríamos na areia em torno de 14h00. 

Amarrei dois cabinhos na roda de leme, travando-a. Olhei para o Cassio, agradecido. Que sorte foi tê-lo ali! Sem alguém para fazer o leme adequadamente seria impossível ter mantido o veleiro no rumo certo. Dei um tapinha em seu ombro e falei: "- Com muito cuidado, vá lá para dentro". "- Tem certeza?", ele retrucou. Tenho certeza que passaria a noite toda ali comigo. Esse é o tipo de coisa que não tem preço. Ele entendeu meu silêncio, abriu a entrada da cabine e sumiu.

Fiquei no convés, sozinho. "- Frear o barco e preservar a estabilidade e a estanquiedade", pensei tremendo de frio, molhado até os ossos. Estava eufórico novamente. Hipotermia. Bati na entrada da cabine e pedi um casaco para o André. Ao vesti-lo, voltei a razão rapidamente. Joguei alguns cabos na água e uma das bóias circulares. Verifiquei se tudo estava fechado e entrei na cabine. Eram 04h30.

" - Pessoal, estamos capeando. O barco fica como uma rolha boiando no mar. Não há o que fazer. Estamos na melhor balsa salva vidas que e existe, só precisamos a todo custo evitar que embarque água aqui dentro. Pela manhã a coisa melhora e vamos para casa. Já já amanhece...".

Continua...






Comentários

  1. Putz grila!!! DEVANEIOS... Juca, você primeiro perdeu o "motor auxiliar" (movido a vento líquido).... e depois perdeu o "motor principal"............. que m@@#$!!!

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  2. meu caro Juca, ainda bem que não perdeu a vela mestra por mar...

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