"- Mamãe, o que é um 'fuio'?"

Boas!

Dia desses o menininho chegou em casa perguntado para a mãe: " - Mamãe, mamãe! O que é um 'fuio'?!"

Pois é. Desde sábado da semana passada um possível 'fuio', quase microscópico e tímido ao extremo me deixou fulo. E sujo. E cansado. Toda história tem um começo, então vamos a ele.

Eu fiquei sem ir ao Malagô ao longo de todo o mês de abril. A exceção foi o final de semana em que tivemos curso de vela oceânica. A turma de maio foi cancelada, por conta da regata de veleiros clássicos - (ou melhor, do cancelamento de nossa participação nela) e no primeiro final de semana de maio aproveitamos para ir com as meninas e alguns amigos ficar exercitando o nadismo, como eu relatei aqui no post anterior.

Foi ai que o problema começou. Nosso barco usa o sistema de gaxeta para vedar a entrada do tubo do hélice até o motor. E gaxeta que se preza, pinga. Isso não é um defeito, pois serve para a lubrificação que é necessária. Existe um conta de que deve haver uma gota a cada trinta segundos. No Mala eu só consigo uma gota a cada seis segundos. Essa água do mar vai para os porões e quando chega em um determinado nível, as bombas (são duas) entram em funcionamento e a colocam para fora.

Meu primeiro erro foi não ter ido ao Mala durante tanto tempo. Estava tudo bem quando chegamos, mas as baterias não estavam em carga máxima, depois de um mês trabalhando dia e noite para expulsar a água a cada par de horas (três litros por vez). Era preciso dar carga. Meu segundo erro foi não ter, ainda, instalado painéis solares, para permitir a carga nesses períodos de ociosidade. Eu sempre os tenho, mas no Mala ainda não os instalei. Meu terceiro e decisivo erro: dei pouca caraga nas baterias, pois os motores incomodavam a "tripulação". Não estávamos navegando e eu fiz essa concessão da segurança em prol do conforto. Os ingredientes para o desastre estavam, assim, todos separados. Era só o clado ir para a panela!

Fomos embora na segunda de manhã e eu ainda liguei o motor por uns minutinhos, para carregar as baterias. Mas depois da "festa", com todas as luzes acessas, cd, dvd, recarca de celulares, VHF e até um aparelho para apnéia do sono de um dos nossos amigos (que dormiu no barco), a carga da bateria de serviço já tinha ido para o espaço.

No sábado, dia 10 de maio, voltei do supermercado (aqui em Santos) e a Priscila me avisou, aflita: "- O Marcos (o nosso marinheiro) ligou. O Malagô está fazendo água".

Liguei para o Marcos, desesperado. A água estava nos tornozelos. Ia até o camarote de proa. A bateria número dois, que é a de serviço, estava a zero. Ele precisava saber como ligar o motor, que e cheio de manhas. Eu ensinei e, por sorte, a bateria número um, que serve apenas para essa partida, estava com carga. Ouvi o som do control 48 hp funcionando e respirei aliviado. As bombas começavam a drenar a água. Em menos de uma hora ele estava seco, ou o mais próximo disso que as circunstâncias permitiam.

No final de semana seguinte eu participaria com alunos/amigos da Ubatuba Sailing Festival. Tudo precisava estar em ordem. Liguei para o Ricardo Stark, mas ele não estava em Ubatuba. Confiei no Marcos e fui administrando o problema a distância. Todos os dias pela manhã ele me ligava e reportava a situação: as bombas só funcionavam no manual. Os automáticos falhavam e a água estava sempre alta.

Eu não comprei o Malagô com garantia, mas nessa hora só me ocorreu de pedir ajuda para o Cesar. Ele mora em Ubatuba e ama esse barco até mais do que eu. De pronto ele foi até o veleiro e trocou um dos automáticos. Isso foi na quarta-feira. Na quinta, pela manhã, eu estava lá.

No pier da ribeira encontrei o Marcão: "- Acabei de voltar de lá. O  barco está seco!". Respirei aliviado. Mas a epopéia estava longe de terminar. De fato o barco estava seco. Mas as bombas funcionavam a cada um minuto e quarenta e cinco segundos. Isso era demais. Bateria alguma daria conta. Ainda havia algo de errado. Não era apenas a gaxeta. Havia um vazamento. A questão era: onde?

Tirei a roupa e iniciei os trabalhos. Comecei pelos porões. De onde vinha água? Basicamente havia filetes em todos os lugares! Fininhos, tênues, mas presentes. Qual era o veio?

Para resumir muito uma história longa, eu passei as vinte horas seguintes direto, sem dormir e praticamente sem comer. Desmontei o barco todo. Encontrei uma falha no calefeto e fiz o reparo com "tubolit mep 301" (cabe aqui um parênteses: devo muito à construção naval amadora nessas horas, pois eu aprendi a fazer muita coisa e a temer menos outras tantras). Encontrei um registro vazando. Consertei. Nisso as bombas pararam de vez. Queimaram. Ai meu saldo! Bobas de 2000 gph não são baratas. Nem seus automáticos. 

Doeu no bolso e na alma, mas troquei. Aproveitei e comi alguma coisa e tomei um banho, pois meu estado era lastimável. Eu sei que tem muitas moças que leem meu blog e eu sou grato por isso. Mas dessa vez uma concessão no meu palavreado deve ser feita: há muito tempo eu não me sentia tão fodido nessa vida! Perdão, mas não existe outra expressão. Sim, pois para completar, chovia e fazia frio, muito frio - e a besta aqui tinha apenas a roupa de tempo do veleiro, que eu não queria sujar de óleo!

No meio da tarde enviei um e-mail cancelando nossa participação na regata e avisando para que quem ainda não estivesse a caminho, ficasse em casa e curtisse um bom chocolate quente. Voltei para o barco ao meio dia e comecei a procurar, e procurar, e procurar. Nessa as bombas já funcionavam a cada dois minutos e quarenta segundos. Ainda muito!

No final da tarde chegaram o Walnei, o Luiz Malito e o André Scalon.

No sábado pela manhã, antes ainda das 7h00, eu escutei barulho de água. Levantei a tampa do paineiro e vi o que não queria. Muita água e a bateria número dois a zero. Ela não segurava mais a carga depois de ter ficado zerada na semana anterior, sabe-se lá por quanto tempo (ai meu saldo !). Ia começar tudo de novo. Acordei a todos ligando o motor.

Ao longo da manhã o André me ajudou muito: ele isolou compartimento por compartimento, em um trabalho de formiguinha, e foi jogando suco colorido para ver o caminho da água. Também confirmou que não havia vazamento pelas laterais. Quando o Cesar o Ricardo  chegaram para ajudar já estava mais ou menos claro que a água vinha de algum lugar embaixo do motor. Não era exatamente uma ótima notícia, pois não se tem acesso por dentro... cheguei até a procurar alguém para mergulhar com cilindro e tentar achar pelo lado de fora (os caras jogam leite na água: onde tiver falha na vedação, o leite entra e como é branco, dá para ver! Ai é só trabalhar com tubolit mep 301, coisa que todo barco, mesmo de fibra, deve ter). 

Enquanto o Marcos limpava o fundo e eu mergulhava para tentar achar a falha no calafeto (principal teoria),  o Cesar apertou (ainda mais do que eu havia apertado) a gaxeta. Nisso o André percebeu que as bombas eram acionadas apenas após cinco minutos e quarenta e um segundos. Um reloginho! Agradecido, dispensei  minha valente tripulação - para quem dizer obrigado, apenas, será sempre muito, mas muito pouco! - e me enfiei de novo lá atrás, para dar mais aperto na gaxeta. O intervalo subiu para nove minutos e cinquenta e três segundos. Restou mais ou menos óbvio que a gaxeta é parte na solução desse problema e que talvez não haja "fuio" algum. 

A entrada de água segue um padrão muito preciso e ritmado  compatível com o pinga a pinga da gaxeta., que também tem um ritmo prussiano. E a água da gaxeta vem, justamente, de debaixo do motor. Além disso, o barco está todo suado da inundação, o que significa que há ainda muita água para ser esgotada e que cada gotinha da gaxeta, na verdade precipita um monte de outras milhões de gotículas, em uma reação em cadeia. A diferença no tempo que cada aperto na gaxeta faz no acionamento das bombas é significativo demais pata ser aleatório.

Só que... no meio de toda essa complicação, recebi um SMS da Priscila: "Estou com a Alice no hospital, ela está mal". Liguei e ela estava fazendo um raio-x. Dez minutos depois, a bomba: "A médica acha que pode ser H1N1 e por protocolo ela já está tomando o Tamiflu. Vem para cá que eu estou sozinha e desesperada".

Putz... nessa hora tudo o que eu escrevi ai em cima virou a coisa mais sem importância do mundo. Catei meus cacarecos e agora estou aqui em casa, com as meninas. A Alice está sem febre (que estava na casa dos trinta e nove e meio), mas muito constipada. Mas já brinca e come, o que é bom sinal. Eu estou onde devia estar em uma situação dessas. 

Quanto ao Mala, as novas bombas estão funcionando e o Marcos vai lá todos os dias dar carga nas baterias. Será assim até eu ir lá novamente, com paineis solares e ainda essa semana, para reavaliar a situação e decidir o que vou fazer. O barco vai estar mais seco e se o intervalo entre os acionamentos das bombas tiver aumentado, minha teoria da madeira encharcada passará pelo crivo na navalha de Occam. Se houver "fuio", vou acabar subindo o Mala e já fazendo o fundo, pois já passou da hora. O gerente do meu banco é que terá uma síncope... Enquanto isso, cá estou com a espada de Dâmocles!

Ah, já ia me esquecendo: um "fuio" é um "buiaco na paiede", ou no "baco", como diria o menininho da anedota!

E vamos no baldinho mesmo!








Comentários

  1. É Juca, a rapadura é doce mas não é mole não!
    Ainda bem que tu é safo!
    Abraços
    Luiz e Mauriane

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    1. Safo ou doido, ou ambos! kkkk

      Bons ventos e pena que a gente nao se encontrou aqui em Santos!

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  2. Juca
    Tenho uma filha de 1 ano e 5 meses.
    Quando estava lendo o relato de sua luta contra o vazamento e você escreveu sobre a ligação de sua esposa me deu um aperto enorme no coração. Imagino o que você sentiu.
    Fico muito feliz em saber que sua filha está bem (li no próximo post).
    E feliz também em saber que o Malagô vai deixar de tomar banho de dentro para fora.
    Blog tem destas coisas...é engraçado como acabamos criando empatia (na acepção da palavra) com quem escreve mesmo sem conhecer pessoalmente.
    Abs
    Parreira

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    1. Pois é Parreira, internet tem mesmo dessas (boas) coisas! Saiba que eu acompanho seu blog "livreiro" com entusiasmo! Bons ventos, sempre!

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