Substituição de anteparas de veleiro - Atoll 23 - Como fazer?

Boas!

Pois é, pois é... eu não consigo mesmo ficar quieto muito tempo e, então, lá fui eu arrumar encrenca!

Desde que o Cusco veio para nós, há quase um ano, eu percebi que a marcenaria seria um problema. O barco ficou muitos anos parado e, ainda que estivesse no seco, isso cobra seu preço. As anteparas e todos os compensados do interior estavam delaminando. Não havia cupim (ufa!), mas as lâminas se desprendiam com tremenda facilidade, além de estarem sempre com um cheiro de molhado - embora secas. Ao que tudo indica, as anteparas eram as originais do barco - ano 1982, número de série 102.

Então, no último dia 20 de julho - exatos 43 anos após o homem pisar na lua! - dei o meu pequeno grande passo.

Como o objetivo principal deste blog é eu passar pelo perrengue para depois ajudar você a fazê-lo, segue abaixo o roteiro do que fazer e algumas fotos!


1. Para que servem as anteparas?

As anteparas não servem apenas para compartimentar o interior do barco. Esse efeito é secundário: a função principal é servir de elemento estrutural, mantendo o convés no lugar e suportando o peso do mastro e do estaiamento, que durante a velejada aumenta consideravelmente.

Todo barco "torce". Alguns mais, outros menos. Mas essa característica é pensada no projeto, pois serve para amortecer os impactos com a água e manter a estrutura íntegra. Porém essa torção deve ser limitada e um dos elementos que ajudam nisso são, justamente, as anteparas, que por isso devem estar em perfeito estado.

De nada adianta, por exemplo, trocar o estaiamento e manter anteparas ruins. O que se terá será um convés voando, bem preso ao mastro!

2. Que material usar?

Antes de começar a empreitada eu fiquei na dúvida sobre qual material usar. Minha primeira opção foi a espuma de pvc - por exemplo, Divinicell. Esse material é fantástico, pois substitui a madeira em suas propriedades mecânicas (que são até superiores); corta-se com estilete e tem-se pouquíssima perda de material: as sobras cola-se de topo e pronto!

Em minha pesquisa descobri que é possível utilizar esse material para substituição das anteparas. Basta manter a espessura, como me respondeu o Jorge Nasseh: "Se é de 10mm. você usa de 10mm". Mas deve haver laminação (o que também não é muito difícil).

Além, a empresa do Jorge vende as placas já laminadas, por infusão (técnica mais moderna que garante a impermeabilização da chapa pela resina de forma mais uniforme)  e pré-acabadas. O produto recebeu o nome de K-lite:


K-lite

A espuma de pvc tem seu preço regulado de acordo com a cotação do dólar. Há pouco tempo o preço estava bem perto do compensado, apenas um pouco superior. Mas, como ele tem a vantagem de ser livre de manutenção - não delamina nem é comido por cupins - é minha opção favorita (até porque, para anteparas, a quantidade é ínfima).


Porém, contudo, todavia e entretanto... eu tinha uma série de dúvidas que você que irá passar por isso algum dia, não precisará ter. Não quanto ao material se prestar para isso, mas como seria o rearranjo da cabine. O meu "nó" era a mesa de navegação, pois tinha receio de ter muito trabalho para refazer. Além disso, não queria pintar as anteparas e nisso a madeira com verniz leva vantagem, Queria manter as coisas simples, pois sei que facilmente se fica seis meses docado por conta de uma invenção dessas. E meu prazo é bem mais curto do que isso!

Por isso usei madeira: compensado de cedro naval, 10mm, com capa e miolo de cedro. O preço médio dessa chapa é de R$ 200,00. - Com miolo de virola e capa de cedro o preço cai. É a opção mais tradicional, mas repito - o K-lite é uma opção melhor!

Como estava frio, não trabalhei na garagem/estaleiro, mas em cima de máquina de lavar da  Priscila!



3. Passo a passo

O primeiro passo é retirar as anteparas antigas.  Comece pelas da cabine de proa. São menores e mais fáceis de sair.

DICA: se seu carpete de revestimento estiver horrível como o meu estava, aproveite e arranque-o AGORA!

Essas anteparas - atenção - estão laminadas no casco. Eu penei muito para descobrir isso. Tirei todos os parafusos, puxava, puxava, e nada. Ela não vinham. Foi então que investigando melhor percebi a manta com resina bem na emenda. Com uma espátula e martelo, "cortei" a trama e pronto, ela saiu.

É muito importante que as anteparas saiam o mais inteiras possível, pois elas têm diferenças umas das outras e servirão de base para a confecção das novas. Resista, então, à tentação de mandar ver em tudo com a marreta (acredite, alguns parafusos te darão essa vontade, como já descreveu aqui o Ruyter, lá do ES).

Não retire as anteparas principais agora, pois o teto irá ceder - pouca coisa, é verdade, mas isso dificultará o reencaixe. 

E por favor: NÃO VELEJE SEM AS ANTEPARAS!











Depois de cortadas, fiz o teste de encaixe no barco. Serviram como uma luva, idênticas às anteriores.Prendi as duas com os devidos parafusos. Mas ainda não dei o acabamento, nem fiz a laminação no casco (que serão assunto de outro post).

Com as novas anteparas de proa no lugar, foi a vez das principais. Deu medo, frio na barriga, mas no final deu tudo certo. O "céu" não desabou sob minha cabeça. As duas já estão aqui em casa e amanhã as novas seguirão para o corte.



Uma dúvida que eu tinha e que por isso não usei o K-lite, era o quanto da mesa de navegação deveria ser desmontado para a troca da antepara. A resposta me animou muito: quase nada, apenas o tampo da mesa e um acabamento lateral (pequeno). A antepara sai, mas a mesa fica inteira!

Essa semana o trabalho continua.

E, enquanto isso, o Icthus veleja...


  ...e o CCL 2012 já está na terra de Gabriela, depois da passar por Santo André.



E vamos que vamos!

Comentários

  1. Juca,
    você é do tipo 'faça você mesmo'...principalmente prá ver o serviço bem feito. O cusco só ganha com isso!! Parabéns pela coragem e iniciativa.
    abraços a todos por aí.
    stark

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    1. Ter o barco perto tem que ter alguma vantagem... Mas só estou fazendo isso por segurança. A coisa estava feia e se eu pegasse uma porranca, podia dar zebra. BV!

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  2. Juca,

    Você é o cara! Justamente estava pensando nisso, como faria para trocar as anteparas? Seu relato foi bastante elucidativo. Continue compartilhando sua experiência, é de grande valia para todos nós.

    Abraços,

    Matheus Eichler

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    Respostas
    1. Bah, tchê! O cara nada, eu sou é doido, e de pedra! kkkk. O Cusco ainda vai passear com o pessoal da Flotilha Guanabara, por isso precisa estar 100%! E vc, já se acostumou novamente com a vida em terra?!

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  3. Muito obrigado pela dica 1/2 chapa de 220 x 160

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