Navegando com um bebê: a regra de ouro.

Boas!

Muita gente nos pergunta se não temos medo de navegar com a Alice. A resposta que damos é sempre a mesma e não poderia ser outra: "Sim, temos muito medo e é por isso que ela está segura". Apesar do aparente paradoxo, nossa posição faz muito sentido.



Inicialmente não começamos a velejar com a Alice a bordo sem pensar nas possíveis implicações disso. Antes, em terra, conversamos muito sobre o assunto, traçamos uma estratégia bem definida e até hoje a seguimos sem permitir nenhuma concessão. 

O barco, em si, já é um lugar mais ou menos adaptado, pois todos os cantos são arredondados e as coisas são organizadas de forma a não sairem voando (pelo menos não com muita facilidade). Mesmo assim começamos identificando locais que poderiam oferecer algum risco. Cobrimos as cabeças de parafusos com porcas calota; cortamos e limamos excessos de metais; cobrimos com espuma alguns trincos, colocamos travas em armários e gavetas.  Instalamos, também, rede de proteção no guarda-mancebo.


Depois disso, criamos a regra de ouro, aquela que permite que naveguemos, no motor ou à vela ou fiquemos ancorados em qualquer lugar e onde reside todo o equilíbrio da nossa estratégia: SEMPRE TER ALGUÉM DE OLHO NELA, BASTANTE PRÓXIMO E A TODO INSTANTE, SEM EXCEÇÃO, VALE DIZER: ATÉ MESMO QUANDO ELA ESTIVER DORMINDO..

É esse, basicamente, o segredo.

Somos dois adultos e uma (quase) adolescente a bordo. A todo instante um se reveza nos cuidados com a Alice. E nas ocasiões em que há "troca de turno", existe um outra regrinha: AVISAR A OUTRA PESSOA QUE DAQUELE MOMENTO EM DIANTE A NENÉM ESTÁ SOB SUA RESPONSABILIDADE e, mais importante ainda do que isto, SÓ DESVIAR A ATENÇÃO DELA APÓS CONFIRMAR QUE A OUTRA PESSOA ENTENDEU ISSO CLARAMENTE

É um pouco trabalhoso no começo, mas dá certo.

No início pensávamos que mantê-la na cabine seria o mais conveniente e seria isto o que faríamos. Mas faltou combinar isso com a pequena também! Enquanto ela apenas engatinhava, até que funcionou. Mas essa fase dura pouco. Aos dez meses ela aprendeu a andar e hoje, com um ano e dois meses, até sair da cabine sozinha ela já consegue, motivada não apenas pela curiosidade inata, mas principalmente pelo calor!

Isso enfatiza a importância da regra de ouro, mas também cria novos desdobramentos que demandam novas soluções.

Pensamos, por primeiro, em fazê-la usar o colete o tempo todo, mantendo-o amarrado por um cabo ao barco. Mais uma vez faltou acordo com nossa proeirinha! Ela chorava muito e não se adaptou a viver "apoitada". O que fazer?



Decidimos, não sem muito pensar a respeito, que seria impossível cercear a movimentação da neném por completo. Então lembramos de Pavlov e seu reflexo condicionado.  Deixamos ela mais ou menos livre para  subir e ir onde quisesse, mas quando ela vai para algum lugar perigoso (claro, o favorito de qualquer bebê!), a repreendemos verbalmente de forma incisiva e firme. Assim que ela deixa o lugar perigoso (por exemplo, o paiol de popa ou o banco no cockpit), adotamos postura extremamente oposta, fazendo-lhe carinhos, dando beijinhos e batendo palminhas, feito os pais bobos que somos. 

Deu mais ou menos certo. Ela está aprendendo e cremos que com o passar do tempo e com o crescimento, essa ideia será reforçada. Acredito piamente que esse é o caminho: liberdade com responsabilidade (nesse caso, por enquanto, apenas de nossa parte, nos termos da regra de ouro!).



Quanto à navegação propriamente dita, também começamos devagar. Nós moramos em Santos e nosso barco fica em Paraty. No primeiro final de semana que passamos a bordo, não saímos. Ficamos estudando o comportamento da neném e imaginando o que poderia dar errado (cientes de que nesse caso a imaginação dela é sempre melhor do que a nossa). No segundo, saímos apenas no motor e fomos apenas até ali, para Jurumirim. No terceiro subimos as velas e fomos até a Ilha do Araújo e assim sucessivamente. No último carnaval, seis meses depois de termos comprado o novo Cusco Baldoso, passamos quatro dias embarcados, direto, com ela a bordo, dormindo fora da marina e sem nenhum problema. 

O coletinho é usado quando saímos para alguma praia, no bote, ou quando as meninas vão nadar nos infláveis. E ela - que adora água - ao ver o colete já dá o bracinho, toda feliz, porque sabe que vai nadar.



Temos, sim, muito medo e é por isso que ela está segura. 

Aos dez anos de idade tenho certeza de que ela vai tocar o barco sozinha... mas isso já é assunto para outro 'post'By the way,  de agora em diante as atualizações do blog serão semanais, todas as segundas-feiras. Acompanhe!

Bons ventos, sempre! 

Comentários

  1. Caro Juca,

    Virei leitor do blog a pouco mais de um mês e gostei bastante da forma como relata as estórias.

    Velejo num dingue aqui em João Pessoa/PB há uns 15 anos, mas a ideia é passar para um barquinho maior, pois nossa pequena Beatriz, hoje com 7 meses, demorará muito para andar no dingue.

    Parabéns pelos cuidados adotados e pela sua linda família!

    Bons ventos,

    Roberto Cavalcanti

    ResponderEliminar
  2. Roberto, muito obrigado e bons ventos para vcs, em especial para a pequena Beatriz!

    ResponderEliminar
  3. Olá Juca,
    adorei o blog e suas dicas.
    Também temos uma criança pequena a bordo, agora com 2,5 anos, mas já navegando há 1 ano, e tivemos que adotar soluções semelhantes as suas.
    Pergunta?
    Como vc tem lidado com sua quase adolescente a bordo? ela não sente muita falta dos amigos e do contato continuo comredes sociasie internet?
    Pergunto pois tenho uma filha de 11 anos e ela sente muita falta. Por isto tento sempre ancorar em locais que tenha sinal para ela entrar na internet, ou alternar os locais com 1 dia sem e ou tro com.

    Bons Ventos,

    Paulo

    veleiro Bepaluhê

    ResponderEliminar
  4. Legal, Juca essa experiência compartilha é fundamental...valeu pelas dicas.

    ResponderEliminar
  5. Paulo! Benvindo a bordo! Visitei seus blogs e virei seguidor!
    Eu costumo dizer que a pequena é que menos dá trabalho (rs). A pré-adolescente é realmente mais difícil de agradar. Depois que a irmã nasceu e o posto de contra-almiranta ficou ameaçado, as coisas melhoraram um pouco. O que ajudou muito foi ela ter conhecido outras meninas da mesma idade, de outros barcos. Nadar virou algo fantástico de uma hora para outra, rs. Mas ainda assim volta e meia eu a pego vendo DVD em plena baia de Paraty (rs), mas acho que faço como vc, vou aos poucos procurando fazer com que ela dose as coisas. Mas é difícil!!! Vamos juntar nossas tripulas dias desses...

    Roger!

    Seu baco tá ficando pronto! Quero navegar nele, hein?!

    Bons ventos, sempre!

    ResponderEliminar
  6. Precisamos de videos de Bebes a bordo , curtindo as velejadas
    Abracos

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

De Ubatuba a Santos

De Vitória a Recife

De Santos à Vitória