Ilha Grande


O trailer da nossa futura vida... foi assim que apresentei a ideia para a Priscila que, claro, topou na hora. O plano era o seguinte: passar quatro dias a bordo de um veleiro, na Ilha Grande (Angra dos Reis/RJ). O intuito ia muito além de verificar as diferenças entre um barco de oceano e um monotipo (como o Brisa) na velejada, mas descobrir se eu, ela e a pequena Brida conseguiríamos passar algum tempo a bordo, tendo o barco como nossa referência de “casa”.
A escolha da embarcação foi fundamental. Apesar de as opções na internet de aluguel de veleiro, com ou sem skipper fossem muitas, todas me davam a impressão de que o passeio se resumiria ou a ficar na proa, pegando sol enquanto o skipper faria tudo sozinho (turismo total) ou eu me veria sozinho no comando de um barco para o qual eu não estava preparado (perrengue absoluto). E eu não queria nem uma coisa, nem outra. Também não buscava um curso de vela oceânica propriamente dito. Queria o real. O dia a dia, sem roteiros pré-estabelecidos, sem ter que fazer isso ou aquilo. Desejava apenas estar com minha família a bordo de um veleiro,
Foi ai que encontrei o Coronado, um velamar 33 do casal Ulisses e Marcela. No segundo e-mail trocado, percebi quer era esse o barco que eu procurava: “Deixo o cliente fazer tudo no barco, mas a última palavra é minha”, respondeu Ulisses à minha pergunta sobre o que eu poderia ou não fazer em seu barco. Era esse!
No dia 25 de dezembro, após o almoço de natal, nós três e mais dois tripulantes de última hora (Celso e Fabi) pegamos a Rio-Santos com destino à Marina Porto Real, em Mangaratiba. Pernoitamos na excelente Pousada do Sossego (um lugar que não é desse mundo!) e, logo após o café da manhã estávamos embarcando nossa bagagem a bordo do Coronado.
No dia 26 de dezembro soltamos as amarras do cais e aproamos para a Ilha Grande. Sol forte, mas nada de nada de vento. Motoramos até a enseada Sítio do Forte. Celso e Fabi ficariam na pousada do simpático casal Lelé e Creuzinha. Aos poucos fomos nos acostumando com o Coronado, nos ambientando e aprendendo a usar tudo o que havia no barco, do banheiro ao painel elétrico, o enrolador de genoa ao fogão.
A primeira noite a bordo foi bastante tranquila. Jantamos comida feita no barco pela Marcela (macarrão, atum e molho de tomate). Depois batemos papo no convés até altas horas da madrugada (21h00, no máximo!) Dormimos na mesa da sala, convertida em ampla cama de casal. A Brida ficou com a cama ao lado.
As meninas dormiram muito bem. E nenhuma reclamou do balancinho que, ainda que leve, nos fazia lembrar que estávamos em um veleiro. No dia seguinte acordei cedo, antes do sol nascer, algo que para mim não é lá muito normal. Ver o sol nascer na enseada foi mágico e ver as meninas dormirem lá dentro, tão seguras e serenas, me fez confirmar que é essa mesma a vida que eu quero para a gente. Peguei o caíque e fui até a pousada me encontrar com o Gauchão, que já acenava todo feliz do cais, com a mateira em riste!
Café da manhã à bordo, frugal para os meus padrões de glutão. Às 8h30 já estávamos no rumo da lagoa azul. Chegar antes de todas aquelas escunas era, de fato, algo bastante inteligente. Ao 12h00, quando a maioria estava chegando, nós estávamos levantando velas (o vento, finalmente entrou!).
As meninas (em especial a Fabi) me perguntavam (eu estava no leme) se aquela inclinação era normal. Adernamos bem, mas nada perto o limite. Em três bordos (um longo e dois bem curtos), estávamos de volta à Marina Porto Real, onde desembarcamos a Marcela, que tinha que trabalhar no dia seguinte, no Rio. Casal interessante esses dois. Gente do mar. Tranquilos, educados e cultos, ambos passam as instruções de forma sutil. Não alugam o barco como meio de vida, mas como uma maneira de compartilhar o mar com outras pessoas. Almoçamos uma moqueca de peixe no Saco do Céu que me trouxe muitas surpresas...
Na madrugada do dia 28 descobri que o Coronado tinha outro banheiro (a escadinha de acesso na popa!). Surreal... No dia 29, depois de muitos mergulhos e algumas velejadas, voltamos para Mangaratiba e, de lá, direto para Santos, em uma longa e tediosa viagem. Em Caraguatatuba uma queda de barreiras deu a dica do que estava por vir. Dois dias depois, na madrugada do dia 01 de janeiro, o caos de fez naquela região por causa das chuvas. Desmoronamentos, mortes... nem parecia o lugar que nos acolheu tão bem. Fica apenas o desejo de que esta tragédia sirva para que medidas sejam tomadas para recuperar a Ilha Grande, região tão bela quanto frágil, tão selvagem quanto acolhedora.



























Rapa Nuu, a famosa escuna azul...

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