Sobre ancoragens

Boas!

Como comentei em minha última postagem, saímos de Ubatuba para trazer o Jazz 4 em uma manhã da primeira semana de janeiro. Saímos cedo, logo após o sol nascer, no motor. Depois de cerca de uma hora de navegação, com as meninas ainda dormindo, abri a genoa e começamos a velejar, aproveitando o vento NE típico daquele horário.

Nossa primeira parada foi a praia do Jabaquara, já na Ilhabela. Eu tenho por hábito parar sempre o mais longe da praia possível, mas me mantendo abrigado. Vejo alguns colegas velejadores se gabando de que o veleiro deles os permite parar quase na praia. Eu, de minha parte, nunca vi muita vantagem nisso. Parar perto da praia significa que se entrar uma porranca, e elas sempre entram, seu veleiro estará mais perto de encalhar. Fica mais fácil desembarcar? Fica. Mas de bote com motor ou de SUP se chega também. Nesse dia, então, não foi diferente. Ainda mais porque o barco em que eu estava não era meu, o que exigia cuidados quadruplicados.

Fundeamos em oito metros. Sem guincho. A água,porém, estava com uma visibilidade rara. Assim que fundeamos a Alice gritou: "- Olha, dá para ver o fundo!". Dava mesmo. Víamos a sombra do barco na areia. Foi lindo.

Passamos o dia visitando praias da Ilhabela. Mas era verão e à tarde a conta do dia bonito sempre vem. Seguindo o conselho do Spinelli, segui para Guaecá. Fui um tanto desconfiado, confesso,pois ali não há abrigo, a não ser de uma lestada.Como não havia frente fria para entrar, topei.  "- Procure a faixa dos cinco metros, no meio da baia, e fundeie. Já fiz isso centenas de vezes.". Foi o que fiz.

Cerca de meia hora depois do fundeio, do alto da serra do mar - que naquele trecho está bem próxima à costa e é alta - surgiu uma nuvem negra, repleta de raios. A praia estava cheia. Cinco minutos depois, ficou deserta. O vento entrou com força, fazendo voar um ou outro guarda sol desavisado. Soltei 40 metros de cabo, entre corrente e amarra sintética. Tínhamos boa distância de terra e nenhum barco a nossa volta. Era o primeiro teste, que me daria confiança para o que viria no dia seguinte (mas isso eu ainda não sabia). O barco se comportou bem e não garrou (garrar significa que a âncora não está segurando o barco preso ao fundo) nem um metro. 

Ventinho em Guaecá.
O Spinelli sabe mesmo das coisas: o vento vinha de terra para o mar. Se a âncora falhasse, iríamos para o mar aberto e não para a praia. No mar o veleiro está em seu ambiente natural; já na areia...

Depois do vento veio a chuva. Depois da chuva, a noite, com tudo calmo. O excesso de cabo então,  deixou o barco muito "solto", dando o costado para as ondas. Diminuí a amarra na metade e voltou a ficar tudo ok. 

No dia seguinte veio o desafio: puxar a amarra sem acordar as meninas e sem destruir minhas costas. A âncora estava bem enterrada, em fundo de areia plano (a carta náutica traz essa indicação e ela é bem relevante para o tipo de âncora que iremos utilizar. No litoral do Santos/Rio pode-se dizer sem sustos que a Bruce atende bem todos os fundos).

O ser humano sabe usar ferramentas. Isso o distingue de muitos outros animais. Foi o que fiz: usei o barco para tirar a âncora. Com paciência e sentado, puxava o cabo da amarra em pequenas porções, dando motor à vante, devagar, de tempo em tempos*.  Quando ficava impossível puxar, amarrava o cabo no cunho, engatava levemente o motor a vante por alguns segundos e esperava o barco ir levantando a corrente do fundo e ir soltando a âncora. Em menos de dois minutos ficava leve de novo. Fiz isso umas quatro vezes.

Outra opção para quem não tem guincho é usar um cabo longo, com um gancho em uma das pontas, que vá de um ponto da corrente o mais perto da águia possível até um catraca. Então basta catracar esse cabo. O chato desse método é que ele não rende muito, pois a todo instante temos que ir lá levar o gancho de novo para um elo a frente da corrente. Melhor mesmo talvez seja um guincho!

Abrindo um parênteses: quando eu comprei o Malagô (40 pés e 13 toneladas) passamos a terceira noite a bordo (de um total de dez) na Ilha da Cotia, em Paraty. No dia seguinte tentamos puxar a âncora na mão. Não veio. Olhei para a Priscila e disse: amanhã a gente vai embora. Ficamos mais um dia. No segundo dia, logo cedo, tentamos. Não vinha de jeito nenhum, para meu desespero. Comecei a ter saudades do nosso barco anterior, o Cusco Baldoso, um Atoll 23. Nele era só puxar que vinha... No terceiro dia ficamos sem água e sem comida, com duas crianças a bordo. Foi ai que a Priscila teve a ideia de quando a corrente ficasse impossível de puxar, amarrar no cunho e eu dar a vante com o motor, devagar. Intuitivamente ela descobriu como desenterrar âncora! Como recompensa, até hoje - não temos guincho ainda - é ela quem levanta a âncora no Malagô.

Pois bem.

Seguimos no motor, o vento era zero, em direção às Ilhas. Passei por dentro da Ilha de Toque Toque, curtindo a paisagem. Quando vi a primeira barbatana, acordei todo mundo para a festa dos golfinhos! Foi bem legal. 

Passamos o dia nas Ilhas, curtindo a água cristalina e o céu azul. Só não foi perfeito porque havia umas quarenta lanchas por lá também, assim como alguns jets fazendo manobras pouco ortodoxas. Faz parte.



No meio da tarde a água doce acabou. As meninas abusaram nos banhos. O que fazer? O primeiro reflexo era seguir viagem. Mas... no meio da tarde ? E se viesse um temporal? Valia à pena? Combinamos de usar água mineral para o banho e que seria apenas um banho de água doce, no final do dia. Ficamos por ali. Por sorte eu havia comprado muito mais água mineral que o necessário.

Um pouco antes de escurecer olhei para a direção de Bertioga e vi o monstro se aproximando: uma Cb (Cumulus Nimbus) linda, enorme, ameaçadora. As lanchas se mandaram, a exceção de três. Um dos comandantes saiu orientado os demais a se afastarem da praia e ancorarem longes uns dos outros, pois se o vento entrasse como prometia, a coisa ficaria complicada. Isso me deu confiança neles, pois no fundeio, às vezes, o problema está nos outros. Vesti minha "roupa de festa" e tracei a estratégia, feliz de não ter saído antes por conta da falta de água.

Um pouco antes da Cb surgir no horizonte.

As Ilhas ficam em frente à Barra do Sahy, em São Sebastião. A ancoragem ali não é das melhores: o fundo é muito irregular, ondulado. Isso é péssimo para fixar a âncora, pois ela tende a se desenterrar. Se puder fuja de fundos irregulares. Naquele dia, porém, eu não podia.

Soltei todo o cabo que havia a bordo. Um pouco antes do final do cabo e por fora da proa, amarrei uma defensa no cabo da âncora. Assim, se a âncora garrasse, eu poderia soltar o cabo e sair com o barco no motor ou na genoa antes dele ir dar nas pedras. Recolher na mão aquele cabo todo  sob ventos uivantes levaria mais tempo do que eu teria. Com a defensa no cabo ficaria fácil, ou menos difícil, retornar lá e resgatar a amarra depois que as coisas se acalmassem.

Liguei o alarme de garra do celular e do plotter que há a bordo do Jazz 4. Além disso, no plotter, reduzi o zoom para o mínimo possível. Assim conseguia ver o padrão do fundeio, identificando uma possível garra do ferro. Além disso fiz marcações visuais com terra. Por sorte essa minha mania de nos colocar mais abertos faria o veleiro, caso garrasse, ir para o canal entre As Ilhas e o continente e não para as pedras. Pelo menos era o que parecia, mas essa certeza eu esperava não ter.

O padrão do fundeio. Se passássemos das linhas grossas da direita, era porque estávamos garrando. Se nos mantivéssemos à esquerda (na tela do plotter) e para cima, estava tudo bem.
A nuvem foi chegando. O mar a frente fervendo. As meninas lá dentro, brincando como se não tivesse nada lá fora, sem entender porque eu parecia tão tenso. As lanchas ao lado ligaram as luzes de navegação e os motores. O vento vindo. A noite será longa, pensei. 

Um pouco antes de entrar no canal das Ilhas, a nuvem abriu para o mar. Pegamos vento e chuva., mas de raspão e nada como parecia que seria. Se entrasse aquilo tudo que a nuvem negra prometia, porém, estaríamos preparados. E estar preparado é tudo! Se antecipar ao pior é sempre melhor do que a negligência. Se eu tivesse soltado dez metros de cabo e ido dormir, já que estávamos cansados, o desfecho poderia ter sido outro, como já aconteceu antes por ali, mais de uma vez.

A noite foi mesmo longa. A coisa só acalmou lá pelas quatro da manhã. Dormi quase nada.

O veleiro não garrou e no dia seguinte chegamos ao Clube inteiros e sem nem um arranhão no barco. Como deve ser. Claro que recolher todo aquele cabo foi um parto, à fórceps. Mas fui aos poucos e não tive dor na coluna.

Uma boa alternativa para essa situação é ancorar à galga, como fez nossa aluna Ana Paula lá na Flórida, poucos dias depois, quando entrou o tornado. Mas isso é assunto para outro dia.

E vamos no pano mesmo!

* Cuidado! Dê motor apenas o suficiente para que o barco tenha um pequeno seguimento à vante. Se você exagerar nessa manobra há o risco de o veleiro avançar sobre a amarrar que está na água e o cabo enroscar no hélice. Essa manobra exige, sobretudo, paciência.


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