Santos Rio 2015 a bordo do Off Line

Boas!

Após duas largadas anuladas por conta de barcos que queimaram a partida, finalmente o Off Line cruzou o alinhamento entre a Comissão de Regatas - CR e a bóia. Começava a Santos Rio para a gente, às 12h45 de um sábado de céu púmbleo.

Eu fiz parte da tripulação reunida pelo dono do barco, Eduardo Coton, a quem desde já agradeço uma vez mais pela oportunidade e receptividade. Conosco estiveram ainda o Ronei e o Antonio Carlos, donos do veleiro Panda (um Fibramar 34), o Claudio Luiz Gregório (uma lenda viva da vela santista) e o Maurício, que é o marinheiro do Off Line e do Grandpa. Uma tripulação bastante heterogênea em todos os aspectos, mas tranquila quanto ao nosso único obejtivo: completar a prova antes do tempo limite. Nossos adversários seriam nós mesmos, como combinamos antes e como veríamos bem claramente um pouco antes de chegarmos ao Rio.

Conforme o previsto os ventos eram na casa de 15 nós, de  SE. O mar estava baixo e por todo lado havia nuvens de chuva a espreita. Até a Ilha da Moela seguimos mais aterrados, ganhando altura a medida que nos aproximavamos de Ilhabela.

No través de Alcatrazes um problema grave ficou claro: um pote de sardinha sei lá o quê vazou e derramou um líquido oleoso e gosmento que contaminou todo o conteúdo da geladeira. O rancho estava praticamente todo perdido, nos restando apenas bolachas, frutas e demais alimentos que não deixam ninguém feliz por três dias seguidos. Seria uma viagem (ainda mais) longa.Adeus escondidinho de carne seca, adeus macarrão gratinado, adeus comida boa, adeus.

Nós nos afastamos da costa menos do que deveríamos e percebemos isso quando tentamos passar a Ponta do Boi, do lado de fora da Ilhabela. Muitos bordos foram ncessários para vencer o vento contra, até que estávamos atrás da Ilha de Búzios.

Mais uma vez uma sina que tem me perseguido há algum tempo se mostrou viva e presente:  uma certa hora da madrugada eu olho em volta e estão todos dormindo, menos eu - pois alguém tinha que continuar tocando o leme... Ronco aqui, ronco lá... a noite seria longa.

E foi mesmo. Contei os segundos para o dia clarear e então chamei o Maurício, que de noite não pode levar o barco "porque não enxerga no escuro". Com certeza ele deve achar que eu tenho visão infravermelha ou coisa assim. "Eu tenho hipermetropia", se justificava. Coo se eu não tivesse também... Toquei o leme entre 23h00 e 06h00, com exceção do período entre 02h00 e 03h00 em que o Ronei me rendeu e tive uma certa esperança de que ainda havia solidariedade na Terra.

Quando o domingo amanheceu estávamos no través da Ilha da Vitória, já em Ubatuba. Passamos raspando pelo lado de fora dela. Assim que o Maurício assumiu o leme eu deitei do jeito que deu na cabine e dormi por duas horas. Mas alegria de pobre dura pouco, pois às 08h00 havia uma chamada geral onde passaríamos nossa posição e anotaríamos a dos outros barcos. O Gregório era nosso navegador e eu o ajudava nessa tarefa. Como ele é um pouco surdo, literalmente, nessa hora eu tinha que ajudá-lo. Resultado: não dormi mais. 

Como consolo presenciei o Maurício anunciar aos quatro cantos que estava bem e que não enjoava, mesmo que entre uma jura e outra fizesse voar litros de vômito para o mar!

Não dormi mas em compensação  não peguei mais no leme. Pelo menos não até o anoitecer, quando então o estranho fenômeno de os tripulantes irem dormir e me deixarem sozinho se repetiu. Para quem não sabe, eu odeio ficar no leme (Eduardo Coton, note que eu grifei essa parte, ok?!). Deus inventou o piloto automático, o leme de vento e o aluno de vela justamente para  a gente não ter que ficar no leme! Humpf!

Feito esse breve aparte, o fato é que após a Laje da Marambaia, que alcançamos em um bordo único e mais arribado a partir do través da Joatinga (de onde passamos tão distantes que sequer conseguimos ver), o vento aumentou e rondou para E. Foi ai que a prova começou a se tornar uma provação. O mar cresceu. Começamos a fazer longos bordos, bastante torturantes pelo pouco avanço aparente. Depois da Pedra do Sino, em Ilhabela, praticamente demos apenas dois bordos, para ganhar altura perdida com a deriva natural do barco.

Da Laje da Marambaia (onde vimos um golfinho que depois revelou ser um tubarão!) abrimos para o mar e quando voltamos para terra estávamos em Grumari. De lá abrimos novamente e caímos no final da Barra da Tijuca. Ao abrimos de novo nossos problemas ganharam um novo contorno. A corrente contra e o vento se intensificaram e para ajudar um navio patrulha quis chegar tão perto de nós que achei que fosse dar confusão. 

Então, lá fora, bastante amarados, houve uma Assembleia das Nações Unidas feita pelos membros da tripulação e após deliberações sensatas, democraticas, amistosas e cordiais (e em nada influenciadas pela fome, pelo frio, por andar adernado há mais de trinta horas, pela falta de banho há dois dias e mais um par de privações) o resultado foi eu novamente no leme, o Antonio Carlos me contando sobre suas experiências com relações internacionais e o Gregorio vigiando a navegação. Os demais foram dormir. Era pouco mais de meia noite.

Fizemos mais dois bordos bem longos e às 06h00 lá estávamos nós  no Arpoador, com o sol recém nascido e o céu finalmente limpo (vimos muita chuva pelo caminho, mas não pegamos nenhuma gota de água do céu). Eu trazia um sorrisinho no rosto e cantava o Samba do Avião sem parar, eufórico. Já me via cruzando a linha dali a poucos instantes, feliz, contente, vitorioso e ai...

"E ai" que não seria tão simples assim. Mas nem em sonho. Ali terminava uma regata e começava outra: entrar na Guanabara. Chegamos no Arpoador sob um leste de 25 nós. Mas esse  ventão logo tratou de cair  para dez, nove, oito, sete, seis, cinco... pois é. Acabou o vento. O mar virou um espelho. Faltavam ainda sete milhas para a chegada. O pessoal começou a acordar e pensar no filé a Oswaldo Aranha que o Antonio carlos falava o tempo todo.

Para resumir muito uma história longa (mas looooooooonga mesmo!), nós e muitos dos outros trinta barcos da regata levamos oito horas para cruzar a linha de chegada, incluindo um par de horas que perdemos pois ao chegar bem próximo da linha, vindos do Forte Santa Cruz, o vento intermitente acabou de vez e a maré nos empurrou com força para a Ponte Rio Niterói. 

Subimos a baía com uma paciência de Jó, a meio nó (até rimou). E depois de muita luta e esforços hercúleos, ouvimos a buzina pouco depois das 13h00 da segunda, 26/10/2015. Havia acabado! Nós vencemos nós mesmos.

Os aprendizados foram muitos e fazer uma navegada assim sempre nos causa impacto. A primeira coisa que se pensa é que no ano que vem, não faremos mais. Podemos até jurar isso. Mas ai passa um dia, passa outro e então... quem sabe ano que vem de novo, agora para fazer um tempo melhor que o dos outros barcos? Não tem jeito, essa é nossa vida...

E vamos no pano mesmo!

(em breve  fotos, em nova postagem).





Comentários

  1. Parabens a todos ...ainda que tenham passado mal , terminaram.

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  2. Caramba eu nunca fiquei enjoado mais com uma geladeira cheia de coca cola que tinha que pegar para todos a bordo cheia de um cheiro de Sardinha escabeche que mais me parecia cheiro de peixe misturado com perfume de gambá ao molho de mar mexido não hã estômago que aguente então da um desconto (risos)

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  3. É..... a rapadura é doce, mas não é mole não!!
    Muito boa a narrativa. Parabéns pela regata concluída!! Mas ô sofrimento!! .... Por isso não gosto de regatas. Prefiro cruzeirar. O vento acabou, ligo o motor. Simples assim!!
    Se há uma pane no motor, aí sim, não tem jeito, tem que lutar com o mar, onda a onda....
    Forte abraço, Juca!!

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