Gestão de risco: a hora de não partir.

Boas!

Sexta-feira passada eu, o Cassio e o Mauro nos encontramos no Terminal Rodoviário do Tietê e partirmos às 23h00 com destino à Angra dos Reis, onde embarcaríamos (junto com outros tripulantes) no veleiro Caulimaran II, o Samoa 36 (ou seria hotel que flutua?) do Ulisses Schimmels que nos levará até a Refeno desse ano - e nos trará de volta! 

O Caulimaran II - Samoa 36


Chegamos em Angra às 06h00 e pegamos um táxi de um maluco que já tinha namorado uma antiga namorada do Mauro, lá de BH (mundo pequeno, esse!) e o dia começou com muitas risadas. Chegamos lá pelas 07h30 na marina Portogalo - casa do Caulimaran II, onde já estavam o Ulisses, sua esposa Marcela, o Henrique e o Luciano Guerra. Logo depois chegaram, do Rio, os outros dois valentes tripulantes: Rafael e Leonardo. Não demorou muito e nós três viramos "os paulistas"...

Depois de um belo café da manhã a bordo o Luciano Guerra, que é meteorologista, fez uma excelente palestra (que eu quero trazer para as bandas de cá da latitude 23º) sobre o assunto, fazendo até parecer que a coisa é simples e fácil (mérito dos bons professores).

Lembrei da água da Boreal...


Nossa previsão de partida era 12h00. Começamos, então, a nos conhecer e a arrumar o barco. A previsão não era das melhores para essa travessia: vento contra, de leste, na casa dos quinze nós, com previsão de rondar para sueste, mar grande e uma ressaca a caminho. Fora isso chovia sem parar (aquela chuvinha fina, típica da Costa Verde) e para os padrões santistas estava bastante frio.

Juca (de costas), Cassio e Rafael estudando para ser gente grande. 
Antes de sairmos o Ulisses havia trazido o mecânico para revisar a bomba de água salagada do motor, que estava pingando. Nosso comandante chega a ser neurótico com a manutenção do barco e uma bomba pingando era demais para ele aceitar sair para uma jornada tão longa (nós íamos apenas até o Rio, mas o barco está subindo a costa!). Problema  da bomba resolvido, devoramos o maravilhoso macarrão com molho de camarões da Marcela e às 12h23 suspendemos (ou seja, soltamos as amarras do cais e tocamos para nosso destino). 

A previsão mais otimista era algo entre doze e quinze horas de navegação, naquelas condições, o que nos dava uma folga para pegarmos nossos voos de volta, três diferentes entre 12h00 e 14h00 do domingo.

Saímos no motor e o vento já se mostrou presente, de leste e forte. Como estratégia seguiríamos no motor pelo menos até vencermos a Marambaia, para evitar o vento contra e o avanço mínimo entre cada bordo por conta da corrente e de lá seguiríamos como melhor fosse. Era uma travessia de transporte e entregar o barco no Rio, nas melhores condições e o mais rápido possível era a prioridade.

Frio.



Mas ai...

O Ulisses percebeu que a bomba de água não estava jogando água para fora, o que significa que o motor não estava sendo refrigerado. Abrimos a vela de proa  (uma working jib igual a do Malagô, feita também pelo Arnaldo, mas branca ao invés de laranja). Quem entendia do riscado fez o que pôde, mas com o barco jogando daquele jeito era impossível. Retornamos para o cais - no pano mesmo! - e para encurtar uma história longa, apenas às 19h30 de um dia cinzento e cansativo a bomba tinha chances de 80% de estar consertada.

Mauro indo para o "Pesca Mortal". Esse cara tem cada história (e conhecidos...).

Foi ai que veio a grande lição: a gestão desse risco, muito bem conduzida por nosso comandante. Quais os problemas mais imediatos: o primeiro é que havia o risco de o conserto da bomba não ter sido suficiente para sanar o problema; o segundo é que sem a bomba não teríamos motor e nossa velejada seria 100% dependente de um vento ou contra, ou ausente, o que nos remeteu ao terceiro problema: os voos! Veleiros e agendas, é sempre assim, esses dois não se bicam. Além disso, de forma mediata, estava a ressaca e o mar grande vindo por ai. Mar grande, ausência de vento e à matroca (sem motor) é estar em uma situação pouquissímo confortável. Foi ai que veio a decisão: abortar. Pior do que estar no terra querendo estar no mar, é estar no mar querendo estar em terra.

Se havia alguma dúvida sobre o acerto da decisão essa se dissipou quando, na manhã seguinte, o Ulisses testou o conserto da bomba e descobriu que... ele não havia dado certo. Ou seja, teríamos mesmo ficado sem motor e  sabe-se lá que horas a travessia teria sido concluída e em que condições ou a que custo. 

Voltamos para casa. Sem fazer a travessia, é verdade, mas com grandes lições e é isso o que importa. Aliás, a lição mais difícil talvez seja essa mesma: quando não partir? 

E vamos para o Rio de carona mesmo!

Comentários

  1. E isso aí, Comandante, m~es que vem tem mais! E vamos de taxista doido mesmo!
    Grande abraço

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