SOS Malibu


Eu velejei muitos anos em monotipos, antes de ir para os veleiros de oceano. O penúltimo deles foi o Dom Fernando, um Dinghy Andorinha projetado pelo Cabinho, construído pelo meu amigo Fernando Leitão no Rio de Janeiro (no galpão de São Cristovão) e terminado aqui no Guarujá, na Náutica Sangava.
O Dom Fernando...

... nosso Dinghy Andorinha/Roberto Barros YD.

Ainda na "fase de testes", sai com a Priscila (que opção ela tinha?) e fiquei velejando na entrada do canal de Santos. O vento apertou, pois estava entrando uma frente fria e decidi reduzir os panos, abaixando a buja. Dizem que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Mas nesse dia não foi bem assim.

Um navio estava saindo do porto e, como sempre ocorre nessas situações, nós evitamos cruzar o canal, mantendo a navegação na região próxima a uma das margens. Estávamos na margem de Guarujá, em frente à sede náutica do CIR quando ouvimos o  PLAFT!

O estai de proa estourou. Pudera! Ele era mais fino do que o especificado no projeto e sem o cabo de aço que havia na testa da buja (que, por cautela, eu havia abaixado) o peso que ele passou a suportar foi além de sua capacidade. 

O mastro não caiu imediatamente. Como sempre ocorre nessas situações (essa foi minha terceira) a jaqueira veio abaixo em ultra slow motion, fazendo a gente até acreditar que ele ficará lá em cima. Mas não, ele não fica. O mastro caiu em cima de mim e da Priscila, por sorte sem machucar ninguém.

- O remo! - pedi para ela.

Remei, remei, remei mas esse barco sempre teve por característica RODAR quando remado, mesmo com alguém no leme. Não tinhamos motor - era no pano mesmo! O navio que estava de saída já estava bem próximo de nós. Acho até que dava para toca-lo com a ponta dos dedos...  foi então que tivemos uma visão que nos motivou a remar ainda mais: o hélice do navio semi submerso, dizendo: VENHAM! 


Eu tirei essas fotos no sábado...

... pois essa imagem mepareceu bastante familiar.

Remei, remei, remei, remei, remei, remei, remei, remei mas não adiantava! Continuavamos girando,  girando, girando e girando, indo sempre para o hélice do navio e, acreditem, ele não é pequeno. 

Foi então que pela primeira vez na minha vida dei a ordem de abandono: "- Priscila,  vamos pular e nadar para o mais longe possível desse bicho!". Ela me olhou com uma expressão que ia da incredulidade ao medo, passando pela raiva de eu tê-la colocado naquela fria até que, então, seus olhos começaram a brilhar de alegria: 

 "- PEEEEEEEEGGGGAAAAA!!!!" - ela gritou.

Eu,m tonto como sempre, retruquei:

- Pegar o quê????

Ela insistiu:

 "- PEEEEEEEEEEEEEEGGGGAAAAA!!!!"

Virei o corpo (e os olhos) para a proa do barco e vi uma lancha do Corpo de Bombeiros e, mais do que isso, vi um cabo voando no ar.

Eu sou cegueta e tenho péssimos reflexos, a ponto de se alguém me arremessar um maço de notas de cem reais a dois metros eu certamente irei deixar cair no chão. Nesse dia, contudo, o impossível aconteceu: mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, eu peguei o cabo no ar e o segurei a ponto de "esquiar" com o veleirinho (não havia tempo para amarrar em um cunho, que a essa altura também sequer havia sido instalado).

Ufa!

Fomos rebocados até a Sangava pelos bombeiros, com as pernas bambas e pensando a todo instante que poderia ter acontecido algo desagradavel, para dizer o mínimo. Pelo que soubemos depois a lancha estava passando ali por acaso e viu, por acaso, nossa onça. Foi a primeira vez que um bombeiro me socorreu no mar, mas não a última. Houve outra, mais séria. Essa, porém, é uma história para outro dia...

E vamos no pano mesmo! 

Comentários

  1. Juca, como você consegue?...
    ... sempre deixa a gente querendo mais!!! Conta logo pô!!

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  2. kkkkkkkk to rindo ate agora da situação.... belo "causo" a ser contado numa boa roda.. rsrsrs!

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