Paz e saudade...

Boas.

Há um preço a se pagar quando nós deixamos de ser nós mesmos. Um dia desses (o relato está aqui, no post Faroeste Caboclo), eu paguei o meu. Fiz tudo da forma que nunca faço. Deixei de ser eu mesmo. Doeu. Briguei com o mar e, claro, perdi. Domingo de manhã, em contrapartida, fiz do mar meu amigo e ele me levou para onde eu queria ir. A coisa é simples assim. Tentar fazer diferente é a receita do fracasso.



O combalido Control, sem o cabeçote.

O novo cabeçote.

Sábado, 26, o novo cabeçote foi finalmente instalado. No domingo, 27, soltei a poita às 06h21 e segui no motor, em solitário. O céu não tinha nenhuma nuvem. A previsão era de calmaria até às 09h00, quando um ventinho de SW/S entraria na casa dos oito nós (ou seja, vento a favor). O fundo estava limpo, apesar de eu não raspá-lo desde 10/03 (Ilhabela é um bom lugar para não se ter cracas). O canal de São Sebastião estava um espelho. A maré vazava lentamente e seguiamos em boa velocidade, com apenas duas mil rpm.

Passando a Ponta das Canas, ganhamos o mar aberto, com a proa na Ilha Anchieta. A visibilidade era excelente, dando para ver até mesmo a Ponta Negra!  Mar baixo, apesar do aviso de que uma ressaca chegaria ao litoral de Ubatuba nas próximas horas. O motor trabalhou perfeitamente, sem um único incidente. Ele voltou a ser ele mesmo e não esquentamos mais a cabeça.

Às 08h30 abri a genoa, aproveitando um terral que entrou sem ser esperado. Boa surpresa. Ganhei um nó. Na aproximação com a Ilha do Mar Virado, uma hora depois, a questão: passar por fora ou por dentro? Aliás, aquela região não tem esse nome sem motivo, pois mesmo em um dia de mar baixo a ondulação se fazia sentir.

O mar...

Por fora é mais seguro, mas o caminho fica maior. Por dentro, se a maré estiver enchendo (era o caso naquele horário), o barco segue mais rápido (com maré vazando é um inferno). Mas há uma ilhota e algumas lajes submersas e perigosas no meio do caminho. Como havia vento (a essa altura, já entrando de S) e eu não dependeria apenas do motor, escolhi passar por dentro. A velocidade aumentou e passei bem perto da Ilha, com as lajes por bombordo. 

Voltei alguns anos no tempo. Quando eu era criança e brincava na praia de Santos, no canal três - em frente a Avenida Conselheiro Nébias, onde crescri. Desde então as ilhas oceânicas sempre me pareceram um local inalcansável e inóspito. Hoje, além de passar por elas com certa frequência, me surpreendo com a quantidade de vida que há nelas e que passa sem ser notada por quem está na praia. Não tenho como não pensar na ironia que é a vida de seus habitantes (são muitos) seguir indiferente a nossa presença na cidade de concreto. Os pesacadores caiçaras sabem bem do que estou falando.

... meu amigo, minha segunda casa.

Às 11h30  cheguei na Ribeira, acompanhado por dois golfinhos curiosos. A Priscila vai me matar, mas a sensação foi de "voltar para casa", por mais que nossa presença lá seja efêmera (ela odeia o barco longe de casa, não sem motivo). A poita que era usada pelo Malagô está com o Maluí. Joguei ferro bem perto do Superbakanna (meu ex-vizinho de Boreal) e fui saudado pelo Erom e pela Selma, no Gigante, que tiraram um sarro da minha faina desajeitada. "- Faz um ano que não ancoro" - expliquei - "A gente só ancora em locais bonitos!" - completei.

Acabei alugando uma poita ali pertinho, pela bagatela de R$ 200,00 por mês - quando na Ilhabela eu paguei R$ 50,00 por dia! - e fiquei trinta e três ias lá. Dei uma geral no barco e tomei o caminho de casa. Achei que teria um sorrisinho vitorioso nos lábios, pois dessa vez havia conseguido quando da outra, falhado. Mas não. Tinha em meu coração apenas uma paz enorme, que apenas estar só, no mar, traz. Tinha tambpem uma saudade louca das meninas. Paz e saudade é o que havia em meu coração e isso aconteceu somente porque eu havia sido eu mesmo. Por isso, cheguei ali. 

E vamos no pano mesmo! 





Comentários

  1. Juca, que bom que o motor ficou 'zero bala'!! Dá mais segurança!! É um 'seguro-saúde'....a gente sabe que tem mas não quer usar, quer mesmo é velejar!! kkk E que bela velejada!! Parabéns!! Tocar o Mala sozinho não é qualquer um que consegue!! A vizinhança tá cada dia melhor!!

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    1. São os ossos do ofício! O Mala se toca sozinho, é só a gente não atrapalhar, kkkk. Te vejo na Ribeira/Itaguá!

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  2. Estupendo! Bravíssimo! Mais uma bela história com final feliz e a já costumeira bela narrativa.

    Parabéns Juca, bons ventos desde a Babitonga!

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  3. Deve ter sido uma ótima velejada mesmo! Qto ao novo velho lugar, não tem melhor pra ir daqui até ali!

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    1. Tem razão, Leandro! Essa é a parte do litoral de São Paulo que eu mais gosto! Bons ventos!!!

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  4. Texto inspirador Juca, estou precisando disso...um tempo a sós com meu barco. Abçs

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