Tarituba, uma grata surpresa.


25 de dezembro de 2012. Às 8h00 iniciamos a faina de recolher toldos e todas as milhões de coisas espalhadas pelo convés: biquínis  toalhas, baldinhos, pazinhas, bóias e uma infinidade de coisas úteis do universo feminino. Aliás, abrindo aqui um parênteses, tive certa dificuldade em explicar para as meninas que retranca não é cabide, que catracas não são porta bonés, chapéus, toalhas ou cangas e que manicacas não servem para abrir nozes - fecha o parênteses. 

Recolher a âncora dava certa preguiça de sair da pequena enseada. Eu mesmo cheguei a dizer para a Priscila: "- Aqui é tudo igual: mar esverdeado, uma prainha linda logo ali, peixes mordiscando os pés da gente e de quando em vez uma tartaruga ou um golfinho! Para que ficar indo para lá e para cá?!", ao que ela respondeu, provavelmente também pensando no peso da âncora (é ela quem a puxa!): "- Eu também pensei nisso!!!".

Abandonamos esse pensamento. Ligamos o motor e eu acelerei um bocadinho para a frente. A Pri foi lá para a proa puxar o cabo da âncora (sim, eu sou folgado!) Puxa, puxa, puxa e então ela simplesmente não vem mais.  Mas que sufoco! Lá vou eu ajudar. nada. Volto e dou um pouquinho mais de motor para ré. Nada. "- Por que não usei um arinque?", pensei."- Quando voltarmos  para a cidade vou comprar um guincho na Regatta" - delirei. Puxa daqui, de lá e sem ainda saber como ela saiu. Terminamos de puxar mas o tormento ainda não acabou:  o ferro caiu do suporte. E quem tinha forças para colocar aqueles quinze quilos no lugar ou começar tudo de novo? Nessa hora a ideia de ficar ali nunca pareceu tão sedutora...  Para ajudar as meninas - que ficam dentro da cabine sempre que estamos em "manobra" - começaram a ficar impacientes (leia-se: chamando pela mãe ou brincando de pequenas gladiadoras!) e eu cheguei a pensar que trabalhar dá menos trabalho do que tirar férias! 

Não dava para continuar daquele jeito e então eu e a Pri juntamos forças e colocamos o ferro no lugar. Ufa!

Era muito cedo e não tinha vento. Como todo final de tarde e início de noite vinha uma porranca daquelas, sem falar no maçarico (o sol) derretendo nossas cabeças, optei por velejar menos e motorar mais. Saiamos bem cedo, escolhíamos um lugar para ficar e de lá só saiamos no outro dia, bem cedinho. 

Fomos motorando devagar, curtindo a paisagem. Para a Alice, ao invés do colete (que eu continuo achando inútil quando o barco está navegando, pois o bebê simplesmente não pode cair no mar e o colete é uma assunção de que isto é uma possibilidade) usamos a "macaca", um "cinto de segurança bebezal". Em outro post falarei mais sobre isso.


Passamos pelas Ilhas Pelado e Peladinho, por São Gonçalo, pela Ilha do Breu, pela Ilha Comprida e chegamos em Taritruba, um Saco bem abrigado, com fundo de boa tença e muito boa infraestrutura. Procurei um lugar bom para o fundeio e, claro, parei a quilômetros da praia. Mas quem ia querer tirar a âncora de novo e reposicionar?! Além disso, tínhamos o botinho, era só remar até a praia! Viva o violão, que repousava em sua capa dentro de um paiol na proa enquanto meu 3.3 estava no cavalete, na garagem de casa.

O amigo Ricardo Stark já havia me dado a dica, mas Tarituba superou minhas expectativas mais otimistas. A vila é relativamente grande (na verdade, Tarituba é um bairro de Paraty), daquelas com igrejinha na beira da praia. Há pizzaria, restaurantes (alguns até aceitam cartão de débito e crédito), pousadas, posto de saúde, soverterias (plural), peixaria - onde se compra também gelo (filtrado) e uma venda, o Mercado Tarituba, na Rua Bulhões, onde se acha de tudo do básico a um preço bastante honesto. Até hoje dou risada da cara do dono quando viu que eu levei dez garrafões de cinco litros de água mineral, todo o seu estoque! Além disso na praia há chuveirinhos de água doce e na ponta do pier uma torneira onde se pode encher os tanques do barco.


A praia é de areia grossa (mais para o fundo é lama) e tem bastante vida. Porém, é claro que você olha para tantas casas e se pergunta para onde vai o esgoto de todas elas... mas os dois riachos que existem por lá logo dão uma dica. Pensar demais pode fazer mal à saúde!

Passamos o dia na praia, à sombra de uma árvore. Almoçamos no restaurante Peixe Maluco e voltamos para debaixo da nossa árvore, ao som da "rádio" do Marcelo´s Bar, um sujeito gente fina que irradia sua própria programação entre um cliente e outro. Nesse dia ele tocou Caetano o dia inteiro (por conta do passamento da dona Canô) e Beatles a noite toda (dava para ouvir do barco e eu pensei que o Paul tivesse também ido dessa para a melhor). 

No final da tarde limpei o fundo do Malagô, que já estava cheio de limo (a venenosa está no fim, ai meu saldo!), vimos um por do sol lindo e pescamos algas.







Antes de dormir, claro, começou a ventar mais forte e um barco de pesca estava próximo. Eu e minhas ancoragens perfeitas! Chamei a Priscila, que me olhou com ar de "-Temos mesmo que fazer isso" e lá fomos nós. Dessa vez, porém, a coisa começou a melhorar: quando a âncora travou ela teve a ideia de passar a corrente no cunho. Ai eu dei motor à ré e pronto, o ferro soltou. Ela então puxou o restante e só precisou da minha ajuda para colocar no suporte. Não chegou a ser fácil, mas também não foi difícil. E eu só pensava em ir na Regatta comprar o guincho...

Tarituba - Paraty/RJ - Carta 1633
Coordenadas do fundeio: 23º02.82'4S / 44°35.82'2W
Distância de Paraty (Pier 46): 12,5 Milhas Náuticas.
Cuidados na navegação: Pedras no canto esquerdo de quem entra no Saco Tarituba.
Estrutura: água, gelo e comida na Rua Bulhões!



Comentários

  1. Estive na Praia Grande, uma vila de pescadores 10km ao norte de Paraty e o fundo do mar era lodoso. Disseram-me que a costa norte inteira é assim, mas eu nunca fui conferir. Ao ler isso tive certeza!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois é, pois é! Mas é a lama mais linda desse mundo, tchê! Quando vc vem por aqui???

      Eliminar
  2. Pois é, Juca: pela estrutura simples mas suficiente de Tarituba, entendo ser parada obrigatória por aquelas 'bandas'. E, prá quem sai de Paraty pode chegar 'por dentro' da I.Cedro. Uma vez saímos do Cedro com 1 knot e chegamos em Tarituba umas 3 horas depois, passeando mesmo, sem pressa nenhuma. Ou ir velejando 'por fora', deixando a I.Araçatiba por BE direto pro portinho.

    ResponderEliminar
  3. Esse bar do Marcelo, em Tarituba é um lugar imundo, barulhento, caro e a comida me fez mal (isca de peixe frita da com óleo de quinta catergoria)
    Não recomendo!

    Werner jan 2013 ABVC

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Werner, nós comemos no peixe maluco. Apenas usamos a sombra da árvore do Marcelo´s Bar. A sombra era boa e não nos fez mal! Bons ventos!!!

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

De Ubatuba a Santos

De Vitória a Recife

De Santos à Vitória