segunda-feira, 28 de maio de 2018

A Travessia Azul

Boas!


Depois de chegar em casa e reorganizar a vida, foi preciso um período de silêncio para que eu pudesse avaliar e valorar, com os pesos e medias corretos, tudo o que efetivamente aconteceu durante nossa travessia para a Africa do Sul.

Ao longo do mês de março eu me dediquei a escrever o livro: A Travessia Azul: de Ubatuba à Cape Town a bordo de um pequeno veleiro. O livro está finalmente pronto e será lançado em breve, em formato digital e impresso.



Nossa travessia foi uma viagem interior e escrever sobre ela me fez mergulhar uma vez mais em pensamentos. Como eu disse em uma passagem do livro, "Ninguém é o mesmo depois de fazer uma coisa dessas no Atlântico Sul". Acredito que o livro reflete bem essa realidade.

Agora está na hora de continuar nossa travessia, divulgando nossa história pelos quatro cantos do Brasil.

Assim, com o apoio da ABVC - Associação Brasileira dos Velejadores de Cruzeiro - ABVC, eu e o Alan Trimboli daremos início ao ciclo de palestras sobre a Travessia Azul.

A primeira será realizada em SANTOS/SP, no dia 06 de junho de 2018, às 19h45, no SMART CENTER. O endereço é Rua José Cabalero, n. 15, Gonzaga. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas através do e-mail: secretaria@abvc.com.br. Pedimos apenas a doação de um quilo de alimento não perecível.

Ao longo de 2018 percorreremos todas as regiões do Brasil. Acompanhe nossa agenda!

E vamos no pano mesmo!








segunda-feira, 7 de maio de 2018

Travessia Guarujá - Ubatuba

Boas!

Há uns dez anos, quando eu pensava em velejar de Santos até Ilhabela, me sentia como se fosse dar uma volta ao mundo (sem escalas). Era uma velejada longa e isso me causava muita preocupação. Redes de pesca no caminho, previsão do tempo, condições gerais do barco, o imponderável.

Hoje em dia ainda é assim. Apenas uma coisa posso dizer que mudou: minha relação com o tempo. Passar quinze horas ou vários dias a bordo navegando não me soa mais tão difícil quanto antes. É ir só até ali... nada demais. E isso aconteceu antes mesmo dos meus trinta e oito dias a bordo do Soneca, com vento contra, na travessia do Atlântico Sul.

Até quatro de maio  eu teria que levar o Malagô de volta para Ubatuba. Não havia opção. A maior dificuldade era que o Malagô está sem motor e não há perspectiva disso mudar no curto prazo. Foi então que em quinze dias planejamos como fazer para irmos apenas na vela até o Saco da Ribeira. Como consolo havia a certeza, absoluta, de que dessa vez o motor não quebraria em hipótese alguma...

O melhor dos mundos seria uma frente fria entrar. Com isso surfaríamos o mar com vento e ondas favoráveis de SW. Passaríamos por fora da Ilhabela e entraríamos com ventos folgados na Ribeira. A navegação levaria entre dezoito e vinte horas.

O plano B seria ir com ventos de E ou SE. Nesse caso, contra o vento. Nada impossível, embora desconfortável. Faríamos uma parada para dormir na praia de Guaecá (em São Sebastião) e sairíamos no dia seguinte, com destino ao Saco da Capela (em Ilhabela). Havendo condições, seguiríamos para Ubatuba no dia seguinte ou deixaríamos o barco por lá para terminar a viagem em duas etapas. Consegui apoio para atravessar o canal com o Hill (H2Orça) e com o Previdi (do Guina) - a quem desde já agradeço uma vez mais.

Se tem algo, porém, que eu aprendi na travessia de ida para a África do Sul, foi que aquele ditado judeu, "Faça planos e Deus ri", é bastante verdadeiro.

Esperei quinze dias por uma frente fria. Apenas uma passou, mas ao largo, no oceano, trazendo ventos de E. Depois, no último dia que poderia ficar aqui em Guarujá, veio uma tremenda calmaria. E não havia plano C. Era matar ou morrer, ir ou ir.

Partiríamos na sexta-feira, 04 de maio, do Pier 26. Eu, a Vivian e o Walter. Prontos para passar alguns dias boiando no mar. Pela previsão haveria vento apenas três horas por dia. Depois, calmaria. Seria uma semana longa até Ilhabela e a cada nova previsão, o Saco da Ribeira ficava mais longe.

Acordei na madrugada da sexta e olhei para o mar. Estava um azeite. Nada de vento. A lua cheia ria de mim. Então, deixei de ser orgulhoso e tracei um novo plano, mais realista. Iríamos em dois barcos. Na calmaria, esse segundo barco rebocaria o Malagô e quando houvesse vento, velejaríamos. Além disso, a operação seria mais segura. Nossa rota é o caminho de vários navios e pesqueiros, com mobilidade restrita. Sair apenas no pano, com previsão de calmaria (e, depois, de nevoeiros), seria se não irresponsável, no mínimo perigoso. 

Logo pela manhã liguei para o Mauro Pascotto. Ele, infelizmente, não pôde ir conosco (o que foi uma pena, pois teríamos dado muitas risadas). Mas me emprestou o Manu (Velamar 31). Eu só precisaria montar uma tripulação. O capitão foi fácil de arrumar, o Walter. Porém, ele tocar o barco sozinho seria muito pesado. Liguei para o Cainã, que foi nosso aluno e ele chamou o Neto, que também fez aulas conosco (hoje eles são donos do Pitanga, Fast 230). Em dez minutos o assunto estava resolvido.Três iriam no Manu  e eu e a Vivian no Malagô. O Rafael, do Oré Ygarité (Brasília 32), também viria. Mas levaria algumas horas para ele vir de São Paulo e tínhamos que partir.

Saímos do Pier 26 às 12h47 da sexta. Fomos rebocados até a Ponta Grossa. Lá encontramos ventos de SE e velejamos por ... uma hora, apenas. 

Uma hora de uma velejada deliciosa, a cinco nós, apenas no pano.
Depois foi no reboque, a três nós, para não forçar o Manu. Nada poderia acontecer com o barco rebocador, ou eu não me perdoaria. Para o reboque usamos vinte metros de um cabo em "v", na popa do Manu. Esse cabo se ligava a uma mola de inox, para reduzir os trancos. Na outra extremidade do cabo havia outro cabo em "v", amarrado nos cunhos de proa do Malagô. A distância total do conjunto de reboque foi de 60 metros e não houve tranco algum. O deslocamento do Malagô é monstruoso: 13 toneladas.

O sol se ponto na praia da Enseada, em Guarujá.

Uma noite longa se aproximava.

Apenas poucas correções de rumo eram feitas com o leme. No geral o Malagô se mantinha sozinho alinhado com a popa do Manu.

Até Ilhabela o mar esteve liso e não houve vento. Chegamos no Yacth Club de Ilhabela às 7h02. O Cainã e o Neto aproveitaram uma carona no veleiro Panda (Fibramar 34) e voltaram para Santos. O pior já havia passado. Ancorei o Malagô e eu e o Walter fomos até o posto com o Manu.  Reabastecemos  (gastamos 31 litros de diesel em 17 horas de navegação a motor) e uma hora depois continuamos nosso caminho para Ubatuba, rebocados.





A duzentos metros da poita soltamos o cabo de reboque e, apenas na inércia e numa manobra linda (pena que não levo jeito para vídeos), pegamos a poita de primeira, sem vela e sem motor. O Malagô estava em sua poita novamente. Ele voltou para a casa que ele tanto ama.

Não deu para curtir muito a Ribeira. Eu queria ficar, mas o restante da tripulação estava doida para voltar para Santos... Um tanto contrariado, mas sabendo que não se pode exigir muito de quem nos faz um favor,  aceitei invernar o Malagô em apenas quatro horas. 

Arrumando o barco para deixá-lo em Ubatuba.
Suspendemos da Ribeira antes do anoitecer e após uma travessia tranquila, sob o olhar da lua cheia, num mar de azeite (sem nada de vento), com alguns nevoeiros no través do Montão de Trigo, chegamos em Santos às 9h do domingo.

Se eu não tivesse optado pelo reboque com certeza estaríamos boiando até hoje. Avançaríamos algumas milhas quando houvesse vento, mas as perderíamos nas calmarias. Veleiros e agendas não combinam, eu sei. Mas às vezes temos que trabalhar com o que temos e achar soluções, ainda que isso signifique ser rebocado. A inflexibilidade pode ser pior que uma tormenta ou uma calmaria. 

O Manu, de volta a vaga no CIR, como se nada tivesse acontecido. Obrigado, Mauro! Eu amo seu barco.
Em breve voltaremos a usar o Malagô para nossas atividades em Ubatuba (e mais além, quem sabe?).

E vamos no pano mesmo! 




Velejando no Nordeste...

Boas! Por conta do lançamento do livro A Travessia Azul, fiz palestras em algumas cidades para contar para as pessoas mais sobre o que ...