Faroeste Caboclo...

Boas!


Deixei a poita no Saco da Capela no último sábado, 29, às 15h00 em ponto. O destino seria outro Saco, o da Ribeira, em Ubatuba. Há algum tempo eu resolvi passar o mês de abril na Ribeira, pois meu motor anda agindo de forma estranha e lá é a base do Josivan, o mecânico que monta esses motores VW marinizados (Control). O cara é careiro (bem careiro), demora um pouco para entregar o serviço, mas deixa o motor um reloginho e é bem isso o que eu ando precisando.

Sem tripulação sai em solitário. Estranho, mas era um momento em que eu realmente precisava fazer uma dessas. Estar sozinho no mar, depois de tanto tempo. Uma navegação curta (apenas 23 milhas), mas que exigia atenção e uma boa navegação. Deixei tudo o que eu iria precisar bem à mão. Comida, água, roupa de tempo. Fantasiei-me, ainda, de árvore de natal: colete, luzes químicas, rádio VHF no bolso do colete e dois cintos de segurança que estavam sempre amarrados em algum ponto ou em uma das linhas de vida. A previsão era chegar em Ubatuba às 20h00.

Deixando o Saco da Capela...
Vento leste, mais na cara impossível, 14 nós. "No canal ele fica mais fortinho mesmo, pois vem encanado. Lá fora deve diminuir" - pensei.Segui no motor, que rapidinho chegou na temperatura de trabalho, que é 60ºC (ele está sem a termostática). Subi a mestra, no primeiro rizo e toquei o barco feliz da vida com a aventura. Na ponta das canas, como eu já esperava, o vento apertou bastante. Coisa de vinte nós. A lestada tem toda a parede de Ilhabela para bater e desviar para o canal, o que faz dali um lugar excepcional para a velejada nessas condições. Mas não foi só o vento que subiu. A temperatura também. 80º. Algo estava errado. Soltei o leme e vi o que acontecia (não tenho piloto automático).  O barco seguia no rumo por um tempão! "Hum, isso é legal!", pensei. Desci, abri a tampa da radiador e ele estava muito seco. Gastei 5 litros de água e a temperatura voltou aos 60º.

Ilhabela fica para trás...

... e os primeiros carneirinhos surgem no mar, ainda bebês.

Abri a genoa e a melhor orça que consegui foi levar o barco para a Ilha do Tamanduá, em Caraguatatuba. O vento apertou mais do que eu imaginava e o mar cresceu. Ondas de um metro e meio, mas de quando em vez, para variar, sempre vinha uma malvada de dois metros e pouco e lavava a proa. Detalhe: a proa do Malagô fica a 1,70m da linha da água. Eu uso essa referência para calcular o tamanho das ondas: se elas passam do púlpito de proa, com certeza têm mais do que dois metros.Por vezes elas passam essa altura e muito!

O motor ferveu de novo - mesmo desengatado - e lá fui eu encher o tanque do radiador. Legal que eu soltei o leme e o barco manteve a orça. Viva os barcos de quilha longa! Não demorou muito para perceber que estava com problemas. A temperatura não baixou significativamente e resolvi poupar o motor para pegar a poita na Ribeira. Era no pano mesmo! Fiquei um pouco preocupado pois esperava uma calmaria a noite. Por isso, ainda com luz do dia, coloquei a Ilha da Vitória na proa e amarei.

Às 18h20 liguei para casa. A Priscila, claro, estava preocupada. Menti para ela e disse que não havia vento e que eu estava boiando plácidamente, quando na verdade cavalgava, feliz da vida, ondas de dois metros, quebrando de forma bem pronunciada e uma lestada de mais de quinze nós. Enviei uma posição pelo Boatbeacon e me preparei para a noite. Já achava que pelo andar das coisas ia chegar na Ribeira lá pela 00h00. 

Anoiteceu. E ai a festa começou de verdade. Liguei as luzes de navegação. Nos canais 16 e 11 acompanhava a movimentação dos navios e da praticagem. Onde estava é uma área de fundeio e havia o risco de algum navio passar por mim. 

Por conta do rizo o barco não adernou muito e a coisa ia bem. Até que dei um segundo bordo para o mar, um pouco depois de montar a Ilha do Tamanduá (o final dela). Cadê o horizonte? Olhei para o GPS e ele estranhamente começou a rodar, como a roleta do roletrando, sem me dizer para onde eu ia. Dizia onde eu estava, mas naquela altura dava para confiar? Nesse momento a luz da bússula queimou. "Isso será divertido" - pensei, quase pegando a calça marrom, especialmente desenvolvida para esses momentos especiais.A coisa ainda melhorou quando o vento apertou mais um poquinho e o mar cresceu também mais um pouquinho.

Era nevagação pelo métoco braile. Eu me guiava pela genoa: quando ela estolava, eu arribava. Fiquei nessa um tempão. Lembrei-me do Elmo, do blog coisas de barco, que certa vez escreveu que o bom de navegar a noite era que você não via a altura das ondas. Mesmo com a iluminação a bordo reduzida ao mínimo eu realmente não via nada. Foi então que tive a ideia de pegar a lanterna e iluminar o mar, só para ver como estava. 

Ideia de tonto, essa. O mar estava branquinho, cheio de carneirões (claro que o medo aumentou a altura deles em uns metrinhos, rs). Apaguei a lanterna. Fiz uma marcação visual com terra e percebi que estava andado para trás. Dei outro bordo para terra.

Fiquei nesse amara/aterra até às 23h00. Foi ai que precebi que não avançava. Precisava saber o que estava fazendo de errado e a resposta era mais óbvia do que eu pesnava. A orça estava uma mercadoria e a culpa era minha e da ergonomia do cockpit do Malagô. Como eu não havia feito nenhuma grande navegação em solitário com ele, não havia me dado conta disso. Para caçar a genoa eu tinha que me soltar dos cintos, sair da roda de leme, prender os cintos de novo e ir até uma das catracas que ficam a mais de um metro e meio - e, claro, soltar e prender cintos de novo. Quando eu caçava a genoa no ponto certo, o barco dava um bordo e eu tinha que começar tudo de novo. E isso só acontecia no bordo para o mar. No de terra eu conseguia ajeitar as coisas de forma mais ou menos satisfatória. As ondas! No bordo de terra elas freavam a tendência à orça, natural do barco, e eu conseguia fazer o trabalho.

Ficamos nessa e a 01h00 eu consegui, finalmente, chegar na altura da Cassandoca. Amarei. O plano era afastar bastante e depois, em um único bordo, montar o Mar Virado. Porém eu estava exausto, com frio e com fome. Foi ai que eu aprendi um truque novo. Enrolei a genoa completamente, folguei a mestra e vi o que o barco fazia. Voi lá! Entrei em capa! Ele seguia a meio nó, bem posicionado em relação as ondas e se asfastando de terra. 

Minha posição enviada por e-mail para a Priscila pelo Boatbeacon.

Na cabine estava tudo em  caos. Mas deu para eu comer os bombons que o Cassio havia deixado, umas bananas e suco. Olhei para o beliche, ele olhou para mim e deitei. Ficava um minuto deitado, levantava e ia lá fora ver se algum navio ou algum pesqueiro estava em rumo de colisão. No boatbeacon  vi que o Costa Fascinoza estava passando bem perto da Ilha dos Búzios. Fui lá fora e vi suas luzes, lá longe. Foi bonito. O céu ora nublava, ora ficava estrelado e a tal calmaria não vinha. A costa estava visível o tempo todo, a exceção da Ilha do Mar Virado, meu maior problema. Não queria topar de cara com ela. 

Mais descansado e melhor vestido, voltei ao cockpit. A deriva havia sido grande e apesar de estar me afastando da costa, voltei ao través do Tamanduá. Perdi tudo o que havia conquistado entre 23h00 e 01h00. 

Doeu...

Dei outro bordo e recomecei o avanã/retrocede. Olhei para a proa do barco e jurei: "Eu não vou lá na frente nem a pau". Foi ai que vi um estai balançando. Peguei a lanterna e vi um estai de força, de BB, soltinho, mas preso no fuzil e íntegro. Não sei como aconteceu, mas as contraporcas estavam bem desrosqueadas e ele girou. Quebrei minha promessa de não ir à proa. Amarrei-me à linha de vida e lá fui eu. Apertei o estai novamente e voltei ao cockpit. Eram 04h00. Plotei minha posição e estava no meio do caminho, chegando no través da Cassandoca pela segunda vez. Sono e cansaço começaram a pesar. Naquele ritimo - e eu já não contava que o vento fosse melhorar - eu chegaria na Ribeira no doutro dia, sabe-se lá que horas.

Deitado para descansar um minutinho. O óculos cheio de sal do mar...
A música faroeste caboclo (eu vi o filme um dia antes) ficava na minha cabeça sem parar. Liguei o rádio, mas por ali só pega a Beira Mar e "Putz putz" não era lá um som muito agradável. Voltei para o drama do Santo Cristo e pensava se a minha via crucis não tinha mesmo virado um circo. Nisso Raul Seixas me visitou e eu lembrei que "Durango Kid só existe no gibi/e quem quiser que fique aqui/entrar para a história é com vocês". Eu não sou heroi. Sou apenas um simples especialista em ir até ali e voltar. Não tinha mais forças e a coisa estava ficando perigosa.Coloquei a proa de volta para a Ponta das Canas. Uma alheta perfeita. Barco a sete nós, só na mestra rizada. Estava voltando. Não dava mais. Aquela era a hora de desistir, pois se continuasse poderia quebrar algo importante ou me mechucar (com sorte). É preciso saber a hora de parar.

Eu levei  11h00 para chegar até ali. Em condições melhores, eu teria feito o mesmo percurso em 02h30. E foi justamente esse o tempo que eu levei para voltar para a poita no Saco da Capela, onde cheguei às 06h32 - peguei a poita no pano, ajudado pela calmaria que, finalmente e como que debochando de mim, chegou. Eu havia fracassado.

De toda a sorte foi legal essa experiência. Vi muitas coisas que devem ser melhoradas, no barco e em mim. Gostei também de ter ficado sozinho no mar. Pior, ando desenvolvendo um estranho gosto por navegar em condições mais adversas. Vai entender.

E vamos no pano mesmo!






Comentários

  1. Que perrengue hein Juca! Mas não há outro jeito, experiência é algo que se adquire experimentando; experienciando. A única vez que velejei a noite, concordo contigo, não é possível ter ideia nítida da situação das ondas. Tu és muito corajoso, isso sim, de ter só a companhia do velho Mala; ele é um senhor do mar e sem dúvida tem muitas coisas a ensinar, só por favor, pare de testar a capacidade cardíaca da Priscila e meninas! [risos] Amigo, vai com calma que o mar não vai secar!

    Parabéns pela tua narrativa, sempre envolvente e desenvolta.

    Que o mar lhe seja mais gentil e os ventos sempre constantes. Abraços da Família Ville Floriani desde a Babitonga!

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    1. Rico, corajoso nada! Mas é preciso sempre ir além dos nossos limites -e voltar. Se não, não sairmos do lugar. Bons ventos até a Babitonga!

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  2. Parabéns pelo post, sempre aprendo com seus perrengues!

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  3. Perrengue?! Mas que perrengue?! Aquilo foi só rock'n'roll!!!!!

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