Meia travessia?!

Boas!

Eu já disse aqui que quando tem que ser, é. Dessa vez é hora de reconhecer o oposto: quando não tem que ser, não é. E isso não é necessariamente uma coisa ruim, depende apenas de como vemos as coisas.

Deixei Santos na última quinta-feira, 17, com destino à Paraty. O objetivo era trazer o Malagô para o Guarujá. Fui de ônibus e no Terminal do Tietê encontrei o primeiro personagem dessa epopéia náutica, o Ivan Rodrigues. No caminho já recebemos o primeiro senão: a Rodovia dos Tamoios estava em obras e o ônibus ficaria parado na estrada nada menos do que quatro horas! Assim, ao invés de chegarmos em Paraty no meio da madrugada, como esperávamos, chegamos no começo da manhã. 

Pouco depois de abrirmos o barco para ventilar - mas que cheiro ruim estava ali! - o segundo integrante chegou: o Ricardo Stark, "o forte". Providenciamos a limpeza do fundo, mercado, água e começamos a preparar o barco, que finalmente ganhou um bimini!

O plano era sairmos de Paraty na madrugada do dia 19, mas como eu não sabia se o André Scalon - o terceiro e último elemento - também ficaria preso na Tamoios (certeza nenhuma autoridade competente dava), adiei a saída para o domingo, 20. Isso me deixou um pouco receoso, pois a previsão não indicava a entrada de nenhuma frente, mas ainda para o domingo estava previsto um SW fraco - que eu bem sei que vira forte em questão de minutos, além de ser vento bem no nariz. Por sorte ninguém tinha (ainda) compromissos em terra (razão principal de eu ter escolhido essa tripulação) e tempo não era problema. Como me disseram no facebook, barcos não combinam com agendas. É verdade e eu peço desculpas com quem se chateou - essa condição era essencial. 

Ivan Rodrigues e Andre Scalon.

Minha estratégia para cruzar a Juatinga é sempre a mesma: passar de manhã, bem cedinho, enquanto não há vento e, por consequência, ondas. Eu confesso, sem vergonha alguma, que não gosto de passar ali. Pode ser por conta do clima de Cabo Horn que a literatura náutica brasileira lhe atribui e que muitos acreditam ser injustificado. Mas o fato é que eu passo, mas não gosto.

O André chegou no horário previsto, mas ao invés de zarpamos, fomos dormir.

Aproveitei que a saída foi adiada e pus um "plano" antigo para ganhar tempo: ao invés de sairmos da marina ou da Ilha da Cotia, como da última vez, velejamos bastante pela baia (aproveitando para "adestrar" o Ivan e o André, completamente novatos) e depois rumamos para a Praia Grande da Cajaíba, bem próxima à Juatinga. Nessa avançamos quinze milhas, praticamente sem gastar diesel algum.

O Velho Mala em Cajaiba...
Curtimos o lugar, que é bem bonito. Durante a noite entrou um SW fraquinho, mas contínuo e insistente. Saímos as 06h40 e eu  ainda não sabia se avançaríamos. às 07h15 estávamos no través da Juatinga (ou "- Daquela pedra ali", como o Ivan a definiu, sem saber da má fama do lugar). 

Ricardo Stark em momento de introspecção! 


Passamos lambendo o costão, tão perto que dava até para encostar. Estava particularmente curioso para ver o que havia "dobrando a esquina". Rumo sul, velocidade cinco nós. Na direção de Ubatuba uma visão especial: no continente, um sol promissor se abrindo; ao fundo, no mar, um trem de nuvens de chuva, bem carregadas, distribuindo muita água a intervalos regulares. Entre as nuvens e a costa, um "caminho bem pavimentado", principalmente se você for um jipe! Era por ali. Mantive o rumo sul (verdadeiro) por meia hora. A velocidade caiu para quatro nós. Nos afastamos duas milhas e então eu guinei para boreste. Começava a travessia. 

Afastando da Ponta da Juatinga.
O motivo da má fama da região é que por cerca de sete milhas não há praias, mas apenas um costão rochoso. Com mar de sul as ondas vem, batem nas pedras e voltam, provocando um mar caótico. Nesse dia a coisa estava diferente. O mar, com ondas de até dois metros em alguns trechos, vinha com o vento, de SW e as ondas não batiam no paredão: seguiam para a Ilha Grande.

Eu sempre observo o que os pescadores fazem nessas horas e vi um fazendo o que eu faria nos tempos do caiaque: para fugir da força da maré contrária, ir colado no paredão. Mas dessa vez optei pelo caminho escolhido - afastado duas milhas da costa - e assim fomos até a Ilha Anchieta. Navegamos cerca de cinquenta milhas em dez horas e vinte minutos. Um pouco no motor, outro tanto só de genoa - quando o vento rondou para sul.  Gastamos menos de vinte litros de diesel. Balançamos muito, mas ninguém enjoou. Tudo perfeito.

Ancoramos na Ilha Anchieta e lá dormimos. Antes, descemos para conhecer a Ilha - que vale a visita - e o Ivan voltou a  dar banho no camarão de plástico, digo, a pescar - hábito que adquiriu na Cajaíba. E não é que ele pegou um vermelho? Mas o mestre cuca - caramba, como esse rapaz cozinha bem! - tem um coração grande e devolveu o "bichinho" para a água!

Foto de calendário...

Andre e Juca.

Sr. Vermelho, em dia de sorte.
No dia seguinte pela manhã apoitamos na criação de mariscos do Cesar, digo, na poita que o Cesar tem no Saco da Ribeira e esperamos. Muita chuva e pouca visibilidade. Fomos ao mercado e reabastecemos, pois a coisa estava feia e aquele peixinho já soava apetitoso até para o Ivan.

A chuva ia e voltava, e a visibilidade seguia com ela. Nisso os celulares começaram a tocar. Problemas de terra firme começaram a vir a bordo. As agendas começavam a aparecer. Eu sonhava que perdia audiências, prazos, um horror. O clima estava ótimo, em especial pois todos tinham sempre boas histórias para contar e a comida estava um espetáculo! Era preciso que a coisa continuasse assim.

Graças ao Ivan a comida foi sempre muito, muito boa!
No dia seguinte saímos as sete da manhã, com a mestra toda em cima, mas não vimos nada. Avancei até a Ilha do Mar Virado (que eu não via, apenas cria que estava ali) e de lá via-se menos ainda. Onde estava a Ilhabela, nosso destino? Não sei. Dei meia volta e ancoramos na Anchieta, de novo. Até a Capela seriam menos de cinco horas de navegação e daria para esperar. 

Enquanto isso o André e o Ivan prepararam o bolo de aniversário do Imediato Ricardo Stark, que no dia 22 completou 51 anos! Procurei bexigas e chapeuzinhos da festa da Alice, mas não achei... só pude, então, colocar uma lanterna no lugar da velinha e a festa estava armada! Foi bem legal e o grandalhão ficou com os olhos marejados. Poucas coisas nos deixam tão felizes quanto ver um amigo feliz. Se o Cusco Baldoso era o barco dos casais, o Malagô tem se revelado o barco dos aniversários. Dia 13/02 tem nova festa: o aniversário da Priscila e todos estão desde já convidados!


Esse tempo a mais que passamos em Ubatuba foi muito bom para mim. Eu sempre passei reto por ali, seja de carro, seja de barco. Sempre me dizia que eu estava perdendo algo muito bom. Levantamos a âncora e seguimos de volta para a poita. Não seguiríamos mais naquele dia. No caminho comecei a expor meus planos para a tripulação. Estava muito difícil ir embora dali e, em geral, quando isso acontece em minha vida há um significado. Nisso o sol apareceu e golfinhos também...

Voltamos para a poita. Dispensei quem tivesse que ir embora e todos foram. Fiquei eu, então, sozinho, pondo em ordem coisas no barco que estava adiando há algum tempo e pensando, pensando e pensando. Conversei muito com o Mala, que é um bom ouvinte e tem mais experiência que eu. "- Difícil será convencer a Priscila", ponderou ele com sua voz rouca, um tanto cavernosa. "- Calma, primeiro a gente mostra esse lugar para ela e depois conta!" - retruquei. Ele ficou em silêncio...

Fui embora para Santos no dia seguinte, dono de uma poita no Saco Ribeira, sócio da AUMAR  e vizinho do Walnei.

E vamos no pano mesmo!


Em tempo: apesar do aparente não êxito de nossa travessia, já que não chegamos ao destino esperado, ela não foi nem de longe um fracasso. Tenho absoluta certeza de que eu, o André (que rapaz bacana!), o Ivan (esse eu não vou elogiar pois foi o "chama chuva"!) e o Ricardo criamos e reforçamos laços de amizade. Além disso, vimos cenas muito belas, que só quem está no mar pode ver. Fomos donos de nosso tempo e o vivemos. Pude mostrar, para eles, como é a vida de um cruzeirista, com sua beleza e rudeza, sem maquiagens e pirotecnias. E isso tudo é muito maior do que barcos, travessias, milhas e recordes. Meio cheio ou meio vazio? É com vc!

Ah, ainda em tempo: e não é que eu passei naquela provinha difícil que só? Pois é, agora sou Capitão Amador! Eu continuo não ligando para essas bobagens (o mar não tolera impostores, mesmo os de carteirinha!)!, mas não ter que fazer tantas contas de novo é um grande alívio!





Comentários

  1. EITA VIZINHO!!! Seja bem vindo a Ubatuba, onde você encontra poitas a venda e vizinhos loucos por dicas.... Quem sabe nos encontramos por lá!!

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    1. Quem sabe, uma virgula! Vou subir no Piano Piano (eu prefiro chama-lo, desde já, de Vivre) e montar esse barco DIREITO!!!! kkkk

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    2. Finalmente alguém que conhece da arte vai por a mão naquele barco... ehehehehe!!!!!!!!

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  2. Juca, sua narrativa é muito interessante. Mesmo eu, que vivenciei tudo que você descreveu, li, como se não estivesse estado no Malagô. Como se eu fosse um personagem e um leitor ao mesmo tempo. Parabéns pelo Malagô, pela conquista de 'Capitão' e obrigado pela amizade e oportunidade.

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    1. Pô, não fala assim que eu vou pensar que invetei tudo, kkkkkkk! Brincadeirinha, relaxa. Nossa travessia mostrou que o mais importante não é o destino, mas sim o caminho. E fizemos um excelente caminho! Te vejo no Malagô!

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  3. Grande Capitão Juquinha!!! Que bom que deu certo do Ivan ir com vocês. Fico contente! Acho que teremos mais um pro time...
    Espero um dia, e espero que seja breve, sair pra velejar com você, no Malagô ou no Preguiçoso.
    Abraços ;)
    Fernando Previdi

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    1. Dom Previdi! Muito obrigado pela indicação do André. Só que uma coisa deve ficar desde já combinada: quando o Preguiçoso estiver pronto e tanto ele quanto o Malagô forem para algum lugar, o Mestre Cuca é do Velho Mala!!!! Quero ver vcs por lá, hein?

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  4. Grande Juca!! Indicação do André? Acho que indiquei o Ivan, não foi? Abraços.

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    1. Putz, pensei certo e escrevi errado! kkkkk IVAN, o Mestre Cuca!

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  5. Salve Capitao Juca, parabens!!!
    Melhor ainda: cheio, e com espaco para encher mais kkk
    Abs.

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  6. Capitão Juca!!!!

    Fascinante travessia e encontro de amigos! Temos que fazer uma dessas um dia, hein! De preferência no clássico Malagô e sem agenda de prazos!

    Abraços,

    Matheus Eichler

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    1. Graaaaaaande Matheus! Mais um pouco e teríamos que aumentar a gaiuta, senão ninguém ia sair daquele barco de tão gordo! Espero vc no Malagô, hein?!

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  7. Opa, que legal este post, deve ter sido uma travessia incrível. Muito bom saber que és um Capitão (para mim já era!)Parabéns!

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